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A gente precisa falar


O lugar mais confortável do mundo é a zona dos 90%.


Você olha para a pessoa excelente e respeita o resultado que ela conquista. O seu não é tão alto quanto o dela, mas é muito bom também. O que será que ela faz de diferente?


Com curiosidade, você olha mais de perto.


Identifica o preço que essa pessoa paga pela excelência e sente um misto de reações — um pouco de "não precisa tudo isso" com "uau, incrível mas não é pra mim".


Nessa espiadinha, você provavelmente percebeu algum grau de loucura no percurso dessa pessoa para chegar na excelência (e se manter lá). Você se questionou até se aquilo era saudável porque não parecia normal.


Essa pessoa excelente não é excelente em tudo, você sabe. Mas naquilo, ela é. E aquilo importa pra você de alguma forma, se não você não teria percebido. Lá num cantinho da sua cabeça, você se questiona: será que eu daria tudo para ser como essa pessoa ou eu daria tudo para jamais precisar ser como essa pessoa?


Difícil dizer.


Sacode os ombros, torce o nariz pensa em outra coisa. “Eu hein, o povo tá doido.”


É gostoso demais desempenhar uma tarefa e enxergar que a pessoa excelente segue lá na frente, puxando o resultado imersa na sua loucura. A gente tá logo ali atrás, consegue ver as costas dela e tudo, então não tá mal — tá quase pau a pau com ela, olha só que maravilha. A diferença é que dá pra ficar descansado porque a gente não é doido nem precisa de tudo aquilo.


Essa sensação, atrás da pessoa excelente e na frente do grosso da galera que não consegue acompanhar, é a zona dos 90%.


Ali faltaria só um pouquinho mais pra gente chegar nos 100% e estar no topo. Não é muito — e a gente sabe. Justamente por isso é que a gente não busca.


Atingir a excelência é confrontar a si mesmo com a própria loucura. Com o que a gente realmente é capaz de fazer e quem a gente deixaria pra trás. Quem a gente se tornaria no processo. Atingir a excelência muitas vezes está bem pertinho, faltaria pouco — mas enquanto a gente não entrega os 10%, não precisa responder nenhuma dessas perguntas.


Aí a gente não é excelente, mas segue num lugar muito bom. Onde é visto como um dos melhores sem precisar se desprender do que já conhece. Sem precisar bancar o resultado e a responsa de puxar o que significa dar 100%. Não pros outros, mas para si.


Eu tenho expertise na zona 90%. Perdi o prêmio de artilheira por um gol. Não concorri à presidência porque não tive coragem, só pra ser eleita como vice de surpresa, sem ter feito campanha pra nada. Entrei no desafio das meditações de 30min por 7 dias certa de que ia falhar e quando me percebi impecável no meu comprometimento, no dia 6 "esqueci".


A zona 90% só é confortável quando a gente não tem consciência sobre a própria excelência. Sobre o processo de autosabotagem que nos impede de descobrir quem a gente seria se desse aquele tantinho que falta — e que a gente sabe que tem pra dar.


Desconfio que é bem aqui, nesse ponto em que a gente se entrega para a própria loucura confiante de que não vai se perder nela, que a excelência aparece. E dar 100% deixa de ser um esforço impossível para se tornar o modus operandi de uma vida verdadeiramente feliz.


Uma vida em que a gente sabe que está usando nosso tempo para ser, sentir, testemunhar e evoluir tudo o que pode — e colher os frutos dessa entrega com merecimento.


O que mais há para se fazer do que buscar essa felicidade?

 
 
 

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