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Como faz pra parar uma locomotiva


Definitivamente não é de uma hora pra outra.


De vez em quando eu e a minha irmã corremos juntas no parque mais perto das nossas casas. Ela já participou de grupo de corrida, é alta como eu — mas tem um corpo muito mais esguio. Se você enxergar ela correndo de longe, parece que o pé dela nem encosta no chão. A danada parece que flutua.


Comigo a coisa não é bem assim. Os primeiros minutos da corrida são sempre um terror, sinto que o meu corpo é um boneco Pirelli que eu preciso erguer a cada passada. Demora até pegar no ritmo, mas depois que eu engreno… Sai da minha frente.


Quando me dei conta disso, que eu de fato conseguia engatar um ritmo legal depois que passava do início, me veio à mente a imagem de uma locomotiva. Com aquelas geringonças retas nas rodas, que parecem cotovelinhos, sabe? E vão girando, fazendo o corpão ganhar movimento até que gradualmente ele pega velocidade e vai-se embora.

Adoro me imaginar locomotiva.


E foi com essa analogia em mente que eu percebi que to há meses tentando frear.


Toda essa função de ir aos pouquinhos não é só do zero à velocidade total, mas o contrário também — quando a gente tá a todo vapor e quer mudar de rota; quando a gente tá a todo vapor e esgotando o carvão; quando a gente tá a todo vapor e simplesmente precisa parar.

Não dá pra mudar de ideia e só seguir a milhão. Existe um tempo de resposta entre o comando e o movimento — e depois tem todo o tempo que o movimento precisa pra acontecer.


Pro movimento ser finalizado, então… força, cotovelinhos.


Se você for uma pessoa agoniada com a espera e a falta de controle como eu, frear é um teste de confiança. Tem momentos em que parece que a gente não tá fazendo nada, mas na verdade tá sustentando um movimento que precisa de paciência e nutrição pra acontecer.


Se a gente larga ele de mão antes da hora, a coisa sai dos trilhos.


Me perceber locomotiva-em-freio trouxe uma consciência enorme pros momentos de aceleração. Aqueles em que a gente tá botando energia pra fazer uma coisa engrenar e até se frustra porque não tá indo tão rápido como gostaria; ou pior, aqueles em que a gente vai dedicando energia sem nem se dar conta que tá alimentando uma locomotiva que tá pegando velocidade.


O fato é que tudo o que leva tempo pra ser feito, leva o dobro do tempo pra ser desfeito. E aqui, veja bem: eu disse "desfeito", não "destruído".


Destruir é mais fácil; é mais rápido. É descarrilar o trem no penhasco pra não precisar viver a agonia do freio.


Agora, desfazer… É viver cada minuto de reversão daquela energia. É tomar consciência de cada brasinha de carvão que a gente depositou na locomotiva e, uma por uma, reivindicar aqueles pedacinhos da gente de volta.


Começar e terminar um relacionamento, por exemplo, é assim. Para conectar dois corações a ponto deles percorrerem os trilhos juntos não é de uma hora pra outra, mesmo que no tempo cronológico possa parecer que foi; e é por isso que desenlaçar o coração de outra pessoa é um freio brabo de fazer acontecer. Mas acontece.


Assim como frear uma conduta de desconfiança em si próprio, uma conduta de esperar permissão dos outros para fazer o que se quer, uma conduta de não cuidar de si — por dentro e por fora.


Assusta? Assusta, e como. Mas pior do que viver o freio é se enxergar indo com tudo na direção errada. Com velocidade, mas pensando em frear. Querendo frear. Rezando pra pelo amor de deus alguém vir frear.


Não tem ninguém vindo.


A parte boa é que a pessoa que você precisa pra poder fazer frear já tá aí — e é na coragem de assumir isso pra ela que a primeira brasinha volta pro lugar.


 
 
 

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