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"Mãe, por que o amor precisa ser tão humilhante?"


A ficha demora, mas quando cai, desce com tudo.


Eu já falei dele antes.


Verde, gosmento, pesado.


Com esse sapo de novo preso na minha garganta, eu olhava pro céu azul com os olhos cheios de água. Sentia escorrer devagarinho do meu olho pela lateral do meu rosto direto pra dentro da piscina, onde eu boiava de costas no que hoje parece ter sido uma vida passada.


Eu senti o sapo se agachar preparando o salto e então ele pulou pra fora.


"Mãe, por que o amor precisa ser assim tão humilhante?!"


Minha mãe me olhou embasbacada com o meu rompante e não se aguentou — deixou escapar uma risada. Pausou, me envolveu num cobertor de carinho com os olhos, daqueles que só a mãe da gente sabe fazer.


E me disse que não era bem assim.


Aquele foi o preâmbulo do meu autodiagnóstico sobre o que me impedia de viver um amor libertador. Entendi que tinha algo dentro de mim que eu não queria mais lá dentro — e decidi performar uma cirurgia em mim mesma.

Saí de dentro de mim pelo topo da minha cabeça e deitei o meu corpo numa mesa de aço.

Me examinei dos pés a cabeça.


Os pés — e todos os passos em falso que tinham me levado para aquele lugar. As pernas, subindo pelas canelas e mirando nas coxas — que tanto critico e de quem tanto demando. Ainda não era lá.


Subi um pouco mais e olhei pra ela, portal de tanto prazer e tanta dor. Ali tinha trabalho a ser feito — mas não naquela hora.


Olhei pro meu ventre, pros meus seios, pros meus braços, pro meu rosto. Escaneei tudo e então tive um estalo. Identifiquei onde precisava cortar.


Virei o meu corpo de costas e abri uma incisão da nuca até o cóccix.


Olhei para aquela coluna vertebral e todos os pontos onde ela tinha sido envergada. Onde ela falhou e foi distorcida em algo que não era.


Soltei meu bisturi e da minha bandeja de instrumentos, retirei uma linha de ouro, uma agulha de prata e uma solda.


E então procedi na costura da minha própria espinha dorsal, envolvendo cada vértebra dentro de uma delicada e impenetrável teia dourada.

Fiquei tão orgulhosa do trabalho. Aquilo era a representação da mulher que eu queria ser: delicada e imbatível.


Tecelã do meu eu, fechei a incisão e libertei o meu corpo novamente para a vida.


Os dias tinham outra cara com a minha espinha dorsal dourada.


Percebi que o mundo respondia a mim — e não eu a ele. Percebi que com essa teia ao redor da minha coluna, ninguém era capaz de me vergar. Minha linda e forte teia era impenetrável, incansável, indestrutível.


Ninguém podia verdadeiramente me tocar, mas mais de uma vez deixei que chegasse perto. Perto o suficiente para ver a qualidade do fio e se maravilhar com o refino do meu trabalho; ou se espantar com a insanidade do que eu tinha construído pra mim.


Não importa a reação, minha lealdade estava com ela. Minha linda, forte e intocada espinha dorsal dourada.


Eu sabia que no fundo todo mundo queria uma coluna daquela. Só não tinha coragem de pagar o preço — muito menos de construir uma pra si por conta própria.


E assim vivi, em paz e ereta, até precisar passar por uma porta menor que a minha coluna dourada.


Não só precisar — querer passar por ela.


Era vermelha, com a maçaneta dourada, e meio espertinha. O tipo de porta que a gente vê em Alice no País das Maravilhas: sabe que ela é como é porque ela se fez assim especialmente para a ocasião.


Caminhei pra frente e pra trás olhando para ela e decidi que não envergaria.


Não arriscaria danificar a minha espinha dorsal dourada sem nem saber o que me aguardava do outro lado da porta.


Tentei ir embora.


Não consegui.


Era como se a maçaneta dourada magnetizasse o meu corpo inteiro de volta. Como se pudesse me puxar justamente por causa do ouro que eu mesma teci em volta de cada uma das minhas vértebras.


Decidi que com chutes e socos colocaria a porta abaixo.


Não funcionou.


Eu precisava mudar de estratégia. Resfriei o meu sistema e decidi, gelada e enfurecida, que esperaria até que ela abrisse sozinha. E não apenas abrisse — aumentasse a si mesma para sentir a honra de receber o meu entrar. Triunfante, indestrutível. Intocado.

O tempo passou e ela não abriu.


Pior: comecei a perceber que o tempo não passava com inocência. Era como se a cada minuto de espera ela me puxasse um milímetro mais perto e quando eu me desse por conta, o metal entre nós duas fosse se fundir.


Instantaneamente eu soube: daquele jeito, eu jamais atravessaria a porta.


Mas viveria eternamente nela, presa no quadrado vermelho, ansiando pelo que poderia enxergar que estava do outro lado, mas sem poder viver e sentir e tocar.


Respirei fundo. Olhei novamente para ela — e foi como se ela sorrisse pra mim. O sorriso de uma velha amiga que finalmente te reencontra depois de anos sem te ver. E te reconhece, mesmo sem falar nada, sabendo que algo dentro de você mudou.

Entendi que daquele jeito, com aquela espinha dorsal, eu não ia entrar.


Engoli o choro e o ímpeto de me sentir humilhada porque mais uma vez as coisas não sairiam do meu jeito. Talvez o meu jeito, daquele jeito, nunca tivesse sido o melhor pra mim. Por isso que não funcionava.


Lá por baixo, desatei o nó da costura dourada que sustentava a teia da minha coluna. Não tudo — só o suficiente pra ela relaxar.


Com liberdade de movimento, entreguei minha cabeça ao meu coração. E em postura de reverência, ousei segurar a maçaneta.


E ela abriu.


Não porque ela ganhou e eu perdi.


Mas porque esse é o tipo da porta por onde a gente não passa se não se disponibiliza a ser verdadeiramente tocada — e talvez transformada de maneiras que não consegue antecipar.

Se não fosse o ouro da minha espinha dorsal eu nunca nem saberia que essa porta existia. Mas sem a humildade de soltar alguns nós… Ela jamais se abriria.


O virginal é definitivamente mais seguro. Há mais paz onde há só um.


Mas o vulnerável é o mais profundo.


Há mais possibilidade onde há dois.

 
 
 

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