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A todos os lobos presos em pele de cordeiro


É chegada a hora.


Eu queria cair de joelhos e desistir.


Me pergunto hoje quanta gente não se identificou com os meus textos por causa dessa postura. Me pergunto quanta visibilidade eu ganhei usando a minha voz pra ecoar sofrimento, medo e dúvida. Todos eles verdadeiros, sempre — mas ainda assim, escolhidos.


A experiência de subir (e descer) ao cume do vulcão Cayambe, no Equador, me entregou não só um novo olhar para a forma como eu enxergo a mim mesma, mas uma nova escuta em relação ao meu tom de voz. Foram horas caminhando em silêncio, então o diálogo interno comigo mesma estava mais claro do que nunca.


Me dei conta de que sou um lobo vivendo a vida tentando me convencer que sou cordeiro.

E não gostei — te explico.


Antes do Cayambe, eu subi o Ilinizas. Uma escalada alta, exposta, com muito vento e frio. Cada vez que eu olhava pra baixo, sentia o fundo da barriga apertar de medo. Cada vez que olhava pra cima, sentia o aperto subir, percorrer a minha coluna e estourar na minha cabeça com uma onda de incredulidade sobre o lugar em que eu estava. A situação na qual eu tinha me colocado.


Comecei a sentir que mesmo dando o máximo de mim, não seria suficiente. Como é que alguém que nunca fez isso na vida vai ter força e capacidade pra subir um troço desses? Como é que eu, do jeito que eu sou, vou conquistar esse cume — e chegar de volta na base — em segurança? Não era possível.


Quando mais da metade da montanha tinha sido percorrida, comecei a escorregar. A cada escorregão, um soluço escapava. Tentei segurar o choro com tudo o que eu tinha e bastava um passo em falso pra minha resistência sentir o golpe. Aquilo começou a me parecer familiar — o medo paralisante, a impotência que sai no choro, a vontade de estar vivendo qualquer outra situação que não aquela.


Quatro anos antes, na minha mente e no meu coração, eu já tinha escalado aquela montanha.


No segundo em que me dei conta, a represa cedeu — e toda aquela água que eu vinha segurando botou tudo abaixo. Agarrada na montanha a mais de quatro mil metros de altura, chorei até esquecer quem eu era. Exatamente como tinha feito daquela uma única outra vez.


E aí passou.


Conversando com a minha irmã e o guia que nos acompanhava, decidimos continuar. E escalamos 93% da montanha, retornando por condições de mau tempo e exaustão física.


Voltei pensando que ainda tinha mais três vulcões pra escalar na viagem. Que eu não tava preparada, que eu não tinha cabeça pra encarar aquilo, que eu não tava à altura do desafio. O ataque ao cume do Cayambe, que era o próximo, começava de noite. Quem é que escala uma montanha de neve com quase 6 mil metros de altura de noite?!


Certamente não era eu.


Fui dormir com o mesmo aperto na barriga e a certeza do fracasso.


Pela manhã, antes de partir para o deslocamento que nos aproximaria do Cayambe, eu seguia apavorada. Então conversei por telefone com uma pessoa valente. Uma pessoa que acredita em si mesma, acredita em um mundo melhor, acredita no amor. Alguém que escala suas próprias montanhas pra construir tudo isso. Alguém que me fez acreditar de novo em um monte de coisa que eu achei que não tava mais disponível pra mim. Alguém que me mostrou que os meus sonhos mais impossíveis não são apenas possíveis — são só o início do que pode ser ainda maior.


Lembrei de quem eu era.


E decidi que eu era capaz de subir o Cayambe.


Às 3h da manhã, quando metade do grupo já tinha desistido de continuar, eu tava estalando.


Tava bem.


Tava forte, de perna e cabeça. Me sentia firme, de mão e coração.


Com a consciência desse sentimento, vendo o restante do grupo retornar, me perguntei quem era eu pra estar me sentindo daquela forma.


Como é que eu, que nunca fiz isso antes e tava ontem mesmo tendo um faniquito e perdendo tudo, tava seguindo em frente na montanha mais alta que o grupo tinha enfrentado, junto aos guias e ao homem mais forte do grupo?


Quem era essa pessoa?


Não era possível.


Foi nessa dúvida que senti a primeira rachadura trincar.


Às 5h da manhã, eu esqueci de quem eu era. Ou melhor: internalizei novamente que a pessoa que eu sou não era capaz de fazer aquilo. Meus passos começaram a pesar uma tonelada, meus pulmões arrastavam o ar pra dentro, meus braços queriam se soltar do meu tronco. Pensei dezenas de vezes em pedir pra voltar — mas em todas elas, o que saiu da minha boca foi "sentar". Com pequenos descansos sentada na neve, continuei.

Durante todo o tempo, me perguntei: quem é a versão de mim que consegue? Quem sou eu?


Às 6h da manhã, minha cabeça era uma rua do Rio de Janeiro no Carnaval. Um monte de gente passando de um lado pro outro, barulho, confusão. Até que passou um rosto conhecido — foquei nele. Ele sorria pra mim dizendo que se alguém podia, era eu.

Quem sou eu?


Pouco a pouco o Carnaval se transformou num mar. Um grande nada, silencioso e desesperador. Um mar azul de água na minha mente, um mar branco de neve nos meus olhos.


Quem sou eu?


Às 6h40, eu caí de joelhos. Na minha mente, eu gritava: não consigo mais. Mas da minha boca não saía nada.


Percebendo no meu silêncio o que só quem escuta a natureza sabe ouvir, o guia disse: "Não te entrega". Levantei.


Quem sou eu?


Mexer minhas pernas consumia tudo o que eu tinha e era como se tivesse que morrer e renascer uma vez atrás da outra pro próximo passo poder ganhar vida. Na nossa volta, o tempo fechou — além do mar de neve, agora a névoa ao redor era espessa. Tudo era branco, pra cima, pra baixo e pros lados.


Quem sou eu?


Não tive coragem de olhar muito pras gretas. Elas são buracos escondidos em baixo da neve fofa, que os guias vão identificando e evitando para que o grupo possa continuar.

Quem sou eu?


Às 6h57, chegamos ao cume. E eu soube:


Eu sou um lobo.


Alguns minutos depois, os guias receberam mensagens pelo rádio: o tempo estava piorando e era bom a gente não demorar. Começamos a descer.

Como assim, eu sou um lobo?


Caralho, eu sou um lobo.


Meu joelho começou a latejar. Cada passo dado travando o pé na neve, para agora descer controladamente aquela montanha gigantesca que tinha sido escalada, fisgava meu corpo inteiro com dor. A previsão era que o caminho da volta durasse 3h, menos da metade da subida — e ainda assim, tempo demais.


Se eu sou um lobo, eu consigo. Eu não preciso sofrer. Eu não preciso sentir dor onde todo mundo sente dor — eu sou um lobo.


Dor, dor, dor.


Não é possível que eu seja um lobo.


Peço para sentar, mas caio de joelhos. Choro. Levanto. Tropeço, quase caio de novo.

Choro mais. Levanto. Caminho. Dor, dor, dor.


Que vergonha de mim mesma pela audácia de achar que eu sou um lobo. Eu sou um cordeiro, ridículo e inofensivo. Eu sou um cordeiro, uma presa fácil. Onde eu achei que tinha dentes e garras, tenho um pelo branco e fofinho. Meu lugar não é aqui. Eu não devia estar aqui.


Sigo caminhando. A imensidão de neve parece nunca acabar. Até esqueci que cheguei ao cume. Que diferença faz?


Dor, dor, dor.


Acaba a neve. Agora vem a parte de pedra. Inalo de alívio, exalo de desespero. Agora vem a parte de pedra.


Sigo descendo. O grupo todo segue descendo. Eles me oferecem a mão, me oferecem fazer mais pausas, me oferecem incentivos. À parte disso, os outros três homens que me acompanham estão em silêncio — sabem que ninguém poderá caminhar por mim. Não se ouve nada além dos meus soluços. Me sinto mulher. Um pouco frágil, um tanto valente. Talvez muito valente.


Perceber a diferença entre eles e eu me lembrou de todo o percurso da ida. De todo mundo que desistiu. Da versão de mim que me esperava de braços abertos no cume.


Quem sou eu?


Respiro fundo. Sigo adiante. Pedra, pedra pedra. Dor.


Eu sou um lobo.


Meu joelho me fisga das alturas e me lança no chão de novo. Olho pras minhas pernas e não sei se vejo lã encaracolada ou fios de pelo preto, grosso e sujo.


Levanto. Sigo adiante. Vejo o refúgio.


Chego.


Largo tudo, não acredito que estou aqui de volta.


Quem sou eu?


A verdade é que nunca fui cordeiro, mas pouco sei sobre ser lobo.


O pouco que sei é que o lobo tem menos amigos que o cordeiro. Não é tão bem-quisto, não é tão amado, não é tão perdoado. Do lobo se espera mais.


Talvez tenha sido por isso que eu tenha encontrado tanto conforto na minha pele de cordeiro. Dava pra me disfarçar e dessa forma, de mim, se esperava menos. É menos incômodo viver assim, até porque quando a gente mostra a garrinha de lobo por baixo da lã, o resto da selva acha até bonitinho. É isso aí, cordeirinho. Vai lá. Não deixa a peteca cair.

Pra mim, não serve mais.


Agradeço à minha pele de cordeiro e guardo com carinho numa gaveta de veludo vermelho dentro do meu coração. Reconheço que ela não é indefesa — muitas vezes é só ela que consegue vencer. Perdi as contas de quantas batalhas ela já venceu por mim. Guardo minha pele de cordeiro porque sei que vou precisar dela de novo.


Mas agora, o momento é diferente. Me sinto pronta, me sinto destemida, me sinto eu — seja lá quem "eu" for. Sei que os meus joelhos ainda não caíram todas as quedas do meu caminho, mas não tem problema.


É reconhecer as próprias pernas na hora de levantar que importa.

 
 
 

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