Aquilo que sozinho vai embora, sozinho encontra o caminho de volta
- Dimitria Back Prochnow

- 12 de set. de 2025
- 5 min de leitura

Ou sozinho permanece longe, não importa qual seja a nossa vontade.
Uma vez quando tinha uns 16 anos tomei um esporro do meu pai porque perdi um anel de brilhante. Tinha ganhado de 15 de uma avó que tinha mandado fazer ele só pra mim, como uma joia de família que iniciava seu legado comigo.
Como perdi o bendito anel, nem sei. Ele era tão lindo e eu tinha tanto medo de perder que nunca usava — ele vivia na caixinha. Até que no auge dessa idade eu resolvi que era uma mulher fina e que ia sim usar o meu anel. E numa dessas… ele se foi.
Os esporros na minha casa não eram, de verdade, esporros. Nunca fui xingada com grosseria, ninguém nunca levantou a mão pra mim, o máximo que acontecia era um tom de voz um pouquinho mais ríspido e já era sinal suficiente. O bicho pegava na escolha de palavras mesmo. A repreensão vinha em forma de conversa, em forma de entendimento, e era entendendo a cagada que a gente tinha feito que a punição vinha autoinfligida.
Nesse dia do anel, meu pai me disse: "Eu até acho louvável esse desprendimento que tu tem das coisas materiais. Não achar que aquilo é a coisa mais importante do mundo ou ainda de se achar melhor porque aquilo tá na tua mão. Mas aquilo tem um valor, um valor diferente do restante das coisas, e perder desse jeito é só irresponsabilidade. Ainda mais quando te foi presenteado por outra pessoa. Mais pra frente essa atitude pode te custar muito mais caro do que tu imagina."
Senti no estômago.
Cheguei em casa e revirei absolutamente tudo procurando o anel, decidida a encontrá-lo, o olho cheio de água — talvez já estivesse me sentido mal pela perda dele antes, só não tinha deixado bater. Nada. Sentei e chorei e sabia que eu tinha sido uma idiota — comigo, com a minha avó, e até com as minhas descendentes que nunca teriam a chance de desfrutar de uma joia de família que começou na minha geração.
Passaram-se dias, semanas, meses — e a culpa foi se dissipando e tomando forma de aprendizado. E então o anelzinho sacana apareceu — tinha escapado pelo forro do bolsinho de uma bolsa. Um lugar que eu provavelmente escolhi porque ia fazer alguma coisa com as mãos e queria evitar justamente o risco de perdê-lo.
Corta pra uns três anos depois, quando fiz um semestre da faculdade de jornalismo em Santiago do Chile. Combinei com uma amigona de conhecer o deserto do Atacama e lendo sobre o lugar, entendi que precisava de um casaco muito mais grosso do que qualquer um que eu tinha trazido do Brasil. Até pensei em comprar, mas era uma peça de roupa que não ia mais precisar no segundo que voltasse de lá.
Resolvi trocar uma ideia com um amigo chileno com quem eu dividia o apartamento. E ele prontamente me ofereceu a jaqueta dele: azulzona maravilhosa, North Face, bem quentinha. Topei na hora e lembro da cena até hoje — olhei no olho dele e disse "voy a cuidarla muy bien, no te preocupes".
O estômago prestes a sofrer outro golpe… Já dá pra sentir onde isso vai dar, né?
Vivi toda a viagem com ela, me sentindo muito grata por poder ter contado com essa gentileza. Na hora de fechar a mala pra voltar, tava quente — e justamente por isso achei que o melhor era dobrar a jaqueta dentro da bagagem que seria despachada. Se eu fabriquei essa memória na minha mente, já não sei mais. Mas eu lembro direitinho de ver a jaqueta dobrada, em cima de todas as outras roupas, dentro da mala.
Só que quando eu cheguei em Santiago de volta, nem sinal dela. Abri a mala pra devolvê-la pro meu amigo e era como se ela nunca nem tivesse existido. Refiz os meus passos mentalmente um milhão de vezes pra tentar entender se eu tinha deixado no avião, em um táxi, se ela nunca tinha nem estado dentro da mala. E a sensação que eu tinha — e tenho até hoje quando penso nisso — é a de um vento gelado. De um vácuo. Como se a jaqueta tivesse se desintegrado e não estivesse mais nem nessa dimensão.
Com o rabinho no meio das pernas, me desculpei com o meu amigo e usei a minha "grana da emergência" pra comprar outra pra ele. Continuamos amigos, ele até nem ficou puto como eu achei que ficaria — mas quem ficou de cara fui eu. Como é que pode um troço sumir desse jeito?!
Como é que pode o negócio sumir de uma hora pra outra e desafiar a história que a nossa cabeça tinha do que aconteceu de um jeito tão descarado?
Tá achando tudo muito estranho? Tem mais.
Era domingo de noite e ligaram pra minha casa do hospital.
"Alô, é a casa da Dimitria Prochnow?"
"Sim, quem gostaria?"
"Aqui é do Hospital, a gente acabou de encontrar a tua identidade aqui na frente. Tá na recepção da traumato."
"Ué, mas eu não estive aí. Tem certeza que é minha?"
E então nós conferimos todos os dados e ao que tudo indicava, era minha mesmo. Fui conferir na minha carteira e pra minha surpresa, ela não tava lá. Ou seja… devia mesmo ser minha.
Fui na hora até o hospital e quando cheguei na recepção da traumato perguntei quem tinha deixado lá. "Uma moça que disse que encontrou aqui na frente, caída no meio fio." Por alguma iluminação divina, me veio de perguntar se alguém tinha feito algum procedimento no hospital com a minha identidade — e a resposta foi negativa. A única coisa que constava lá era o registro da retirada do meu apêndice, anos antes, que foi o motivo pelo qual eles tinham meu telefone.
Eu não tinha ido para aquele hospital, não tinha nem passado por aquela rua naqueles dias — e até hoje não faço a menor ideia de como raios a minha identidade foi parar lá.
Bizarro, né? Essas histórias ainda são, pra mim, uma tríade enigmática com significados ocultos sobre perdas e reencontros.
Um pouco (ou talvez um muito) diz respeito ao meu comportamento. Perdi porque não cuidei. Mas ao mesmo tempo… teve vezes em que eu cuidei. Com tudo que eu tinha, com esmero. E ainda assim a coisa foi embora.
O que eu já consegui entender dessas experiências é que tudo tem a sua história e o seu caminho — até mesmo os objetos.
E é uma linha da espessura de um fio de cabelo que separa o zelo do controle. Cuidar de algo não equivale a definir do início ao fim a história que aquilo vai percorrer. Precisa haver aqui uma "margem de imprevistos". Ao mesmo tempo, dar liberdade para ir e vir não equivale a largar de mão, a ignorar por completo a responsabilidade do cuidado.
Eu posso ser relapsa no meu cuidado — e por causa disso, encarar a perda daquilo como consequência do meu comportamento. Mas se o lugar dela é junto comigo, ela vai encontrar seu caminho de volta até mim. E eu provavelmente não serei a mesma quando ela me encontrar. Se eu for, talvez a perca de novo — e aí ela não queira mais voltar.
Eu posso cuidar muitíssimo bem — e isso não significa que aquilo não vai embora. Não significa que aquilo vai ficar exatamente onde eu acho que deveria dentro da minha visão de cuidado.
Eu posso não estar ciente de que aquilo é algo que requer o meu cuidado — ou seja, não cuidei nem descuidei propositalmente. E se for pra ser, sozinho aquilo encontrará seu caminho de volta pra mim.
Tem tanta história por aí de objetos que se perdem e voltam pros seus donos de formas misteriosas que eu realmente não duvido do papel que eles, separadamente da gente, têm a cumprir.
E se tudo isso pode acontecer no nosso relacionamento com os nossos objetos… que dirá do nosso relacionamento com outras pessoas?
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