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Com que idade você pretende morrer?

Atualizado: 16 de jul. de 2025

Uma história real sobre alguém que ganhou mais tempo do que imaginava.



"Mas como é que eu vou saber? Que coisa macabra isso."


Experimente passar por cima dessa resistência inicial para enxergar um número.


O que aparece na sua mente primeiro? 80 anos? 99 anos? Mais de 100? Bem menos, talvez 62?


Saber mesmo a gente não sabe, é óbvio. Mas o exercício ajuda a visualizar onde a gente está, hoje, em relação a nossa própria linha do tempo — e quanto chão a gente tem pela frente pra construir o que sonha.


Você é mesmo muito jovem e não precisa se preocupar? Você realmente já está velho demais para poder buscar aquilo? Quando olha para trás, tem a sensação de que aproveitou bem o tempo que lhe foi concedido?


Com essas perguntas lançadas, quero te contar a história de uma pessoa que tinha certeza do seu número — e foi surpreendida com muito mais tempo do que imaginava.


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O nome dele era Max e ele sempre disse pra todo mundo que ia morrer com 70 anos.

Morreu faz alguns meses com 95.


Do aniversário de 71 pra frente, ele voltava do médico e dizia, estupefato: "Não tem nada! De novo, não posso acreditar, não encontraram nada!".


A saúde na velhice era uma surpresa — e os 25 anos extras para os quais ele não tinha se planejado também.



Max era um advogado dos brabos. Lia tudo que era jornal, entrava em tudo o que era discussão e não pensava duas vezes antes de dizer o que pensava, doa a quem doer. "Um fio desencapado", disseram. Onde encostar, dá choque.


Era também um homem feroz no seu amar. Gastou a fortuna que construiu tentando salvar a primeira esposa de uma doença terminal e ainda assim não foi páreo para o destino.


Toda a brabeza e perspicácia do mundo não foram capazes de parar o tempo e alterar o curso das coisas.


Ele ainda estava longe dos 70 quando tudo isso aconteceu. De certa forma, botou o trem nos trilhos de novo seguiu adiante. Encontrou realização, felicidade e também amor — com a segunda esposa que permaneceu ao lado dele até o final.


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Não posso dizer que sei tudo o que aconteceu depois dessa grande virada porque nas vezes em que eu encontrei o Max, ele geralmente repetia as mesmas três ou quatro histórias.


Falava o tempo todo da esposa que tinha perdido, dos filhos que nunca tinha tido e das discussões homéricas que tinha vencido nos anos de atuação em campo. Era chato, pra dizer bem a verdade — principalmente porque era claro que ele tinha mais para contar e escolhia botar sempre as mesmas histórias pra fora.


Enquanto eu olhava pra pele enrugada dele dentro do caixão, me perguntei quanta vida aconteceu depois de tudo isso e onde estavam as histórias daqueles últimos anos.

Qual é o ponto em que a gente desiste de fazer novas histórias?


Como será que eu agiria se o meu plano de vida fosse espicaçado por algo fora do meu controle — e eu ainda assim recebesse tempo suficiente para construir toda uma outra vida, completamente nova?


Essa segunda vida para o meu eu do aqui e agora seria uma benção ou uma maldição?



Dá vontade de dizer "bênção", né? Parece óbvio.


Mas olhe bem para as pessoas na sua volta, identifique as que já passaram por um portal de transformação dessa magnitude. As que foram arrancadas do seu plano original com tempo suficiente para construir outro totalmente novo.


Quantas delas de fato transformaram esse tempo em bênção?


Quantas delas escolheram para si uma história de maldição?



Fiquei olhando para o corpo seco do Max e pensando que a maior parte das histórias de maldição que ele contava tinham a ver com situações em que outras pessoas fizeram escolhas por ele.


Alguém que mandou ele viajar na chuva, alguém que sacaneou um cliente de forma inesperada — e alguém, sabe-se lá quem, que decidiu levar a primeira esposa embora "antes da hora".


Olhando para a pele enrugada dele e o cabelo branco já bem ralinho na cabeça, me dei conta de que aquela era uma última alfinetada dele antes de ir embora.


É muito fácil caminhar pela vida achando que ela é sobre o que a gente escolhe, o que a gente quer, o que a gente faz. Ainda mais quando a gente tem fogo no coração e uma grande ideia do que quer para si.


Grande parte da vida é mesmo sobre isso — mas não tudo.


Uma outra parte enorme dela — da qual ninguém escapa — é a parte que está fora do nosso controle.


O que acontece com a gente que não fomos nós que escolhemos. O que foge do plano e surpreende o coração nos forçando a levantar as duas mãos para cima e dizer "eu me rendo".


Esse, aqui, é o pulo do gato.


Você consegue se render?


***

Se quiser trocar uma ideia comigo, é só dar um alô pelo email dimitriaprochnow@gmail.com ou pelo Instagram @dimitriaprochnow


 
 
 

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