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Já não sou mais quem eu era


Mas ainda não sou totalmente quem eu sei que posso ser


Comecei a desgostar das minhas roupas. A usar os mesmos dois ou três brincos enquanto a minha caixa de acessórios permanece intacta. A me entediar com o passo a passo da maquiagem que eu sempre amei fazer.


Ao longo dos últimos anos aprendi que a desconexão com a imagem através da qual eu me apresento para o mundo é um dos sinais mais claros de que uma transformação interna grande tá acontecendo.


E aprendi também que o que mais me atrapalha é tentar fingir que "é natural, faz parte, daqui a pouco passa".


A verdade é que é, mesmo, natural. Realmente faz parte. E se tudo der certo, de fato passa.

Só que enquanto a gente não chega nesse outro lado, viver a transformação é um teste de paciência. Talvez mais: de quanto a gente é capaz de se amar sem saber realmente quem é.


"Se eu sempre fui assim, como é que agora quero ser assado? Por que agora quero ser assado? De onde vem essa vontade de ser assado? Como é que eu vou explicar pro mundo que agora eu sou assado?"


E é tanta dúvida nesse teste fictício de fidelidade que a gente queima o bendito do assado.

Me dei conta que a vontade de ser coerente com a minha história frequentemente freia processos de mudança muito naturais e velozes que iniciam quase que sozinhos. É como se eu nem percebesse e de repente, tchan: tudo na minha vida conspira para aquilo tomar forma. Só falta eu assumir pra coisa se materializar.


Por que, então, é tão difícil assumir?


Porque a gente vende pra si mesmo essa narrativa de que não pode mudar "do nada". Que precisa de algo bombástico que brilhe em neon pra poder apontar na hora de se explicar pros outros e dizer "ó, foi por causa disso aqui".


Algumas das mudanças mais maravilhosas que eu fiz pra mim (e por mim) aconteceram depois que o meu pai morreu. E embora essa seja uma das razões que mais me dá conforto e entendimento para o que aconteceu, ela também é uma revelação agridoce.

Porque hoje eu sei que absolutamente todas as mudanças estavam lá disponíveis enquanto ele estava vivo também. Eu é que não me permitia transformar.


A vontade de ser coerente com a nossa história é preciosa, faz com que a gente não se abandone no processo de se reencontrar. O que pega é a preocupação em ser percebido pelos outros como alguém coerente.


Eu não sou a pessoa que vai te dizer "não liga, o que os outros pensam de você não importa". Não digo porque frequentemente importa e porque a gente liga, sim.


Só que nem todo mundo vai ver a coerência. Nem todo mundo tá aberto para ver nem disposto a entrar na zona cinza de quem você é. Daqui a pouco a sua transformação contagia a certeza inabalável do outro sobre quem ele é e ele passa a ser obrigado a encarar que também tem transformações a fazer — e deuzolivre entrar nessa por engano.

O negócio aqui é entender que transformações profundas exigem que a gente se reapresente para poder ser reconhecido. É só isso.


Conte para quem importa quem você é. Como você mudou. Porque agora é assado, e não mais assim. E permita que o outro escolha se quer continuar ali. Se quer ver a sua coerência e acompanhar a sua transformação.


No caminho de botar tudo isso pra fora, até a gente passa a se entender melhor. Mesmo sem estar totalmente do outro lado da transformação, começa a sacar uma coisinha nova aqui e ali e devagarinho vai se reconhecendo de novo.


E percebendo que, na verdade, nunca foi embora: é justamente agora que tá conseguindo chegar.

 
 
 

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