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Como fazer as pazes com o que ficou não resolvido


A ciência não é exata mas já é bem melhor que nada.


Só de ler "o que ficou não resolvido" já te veio uma imagem na mente, certo?

Uma imagem provavelmente bem conectada a uma pessoa.


Pra alguns é amor, outros família, outros trabalho. Mas todo mundo tem a sua coisa-não-resolvida, se não sua série-de-coisas-não-resolvidas. E não importa a idade, não importa o contexto, a coisa tem uma característica que é sempre igual, que sempre se repete, que é o que pode te ajudar a entender se aquilo que te veio em mente é mesmo uma coisa-não-resolvida.


Ela te rouba.


Logo depois que aconteceu, ela te roubou a paz de espírito. Cresceu na tua mente como inço e tomou conta dos teus pensamentos das formas mais irrefreadas possíveis. Digerir tudo aquilo te exigiu muito estômago, recuperar tua rotina te exigiu muita disciplina — e te reconhecer de novo te exigiu muito tempo.


É aqui, nesse tempo, que as grandes mudanças pessoais acontecem. A gente precisa recobrar o senso de pertencimento a si mesmo e pra isso, se dispõe a coisas que não tinha feito antes. Vai pra terapia, começa a bendita aula de cerâmica, compra as passagens, manda mensagem pro cristo de 6 anos atrás que tava lá enterrado na tua mente em outro cemitério do passado esperando pra ser resolvido.


E aí, no meio dessa reconstrução, tu percebe que a coisa te roubou esse tempo. Afinal de contas, tu tinha milhões de outros planos pra agora — e te reconstruir não era um deles. Tu percebe que a coisa te roubou dinheiro — porque agora tu precisa pagar por experiências, serviços e momentos que o teu eu anterior não precisava. Mas depois da coisa, precisa.

Tu aceita e vai adiante, afinal de contas, já aconteceu e não dá mais pra mudar. Tu te coloca nessas novas experiências, te descobre em novos momentos, e pouco a pouco começa a sentir que, contra todas as tuas expectativas, tá funcionando. Tu tá recobrando o domínio sobre a tua mente, tá começando a te reconhecer de novo, tá juntando os caquinhos e te dando conta que talvez esteja ficando até mais bonito do que antes.

E é aqui, nesse momento, que a coisa dá o seu golpe final: ela te rouba o renascimento.

Porque pra pertencer a ti por completo outra vez, tu precisa deixar aquilo ir embora. Tu já consegue enxergar a silhueta e as cores do teu eu transformado. Aquele eu que entendeu o que aconteceu, entrou em harmonia consigo mesmo e finalmente tá em paz. Tá livre. Pra se transformar nele, falta só um passinho.


Só que esse passinho acontece em cima de um último degrau, feito de uma camada de vidro da espessura de uma folha de papel. Pra passar por ele, tu não pode levar contigo nem 1g de vontade de ser o eu-que-estaria-vivo-se-a-coisa-tivesse-dado-certo. Pra passar por ele, tu precisa te despir — nem a roupa do corpo vai.


O degrau de vidro, o último no processo de transformação, é um teste.

De resistência — tu tem força que chega pra te sustentar na nudez completa? Ou precisa de outros, de objetos, de distrações, pra fazer a travessia?


De conhecimento — tu te reconhece na nudez completa? Se não há nada mais além do teu eu despido, o que te faz sentir que esse eu é o teu verdadeiro eu?


E de amor — tu consegue amar o teu eu completamente nu? Esse eu solitário, esse eu sem nada ao redor pra disfarçar o que é feio, esse eu na sua verdadeira essência?


Quando a gente tá lá no momento do teste, parece mais fácil continuar com a coisa do que se despir. E quando a gente escolhe assim, permite que a coisa nos roube mais uma vez.

Quando algum dos testes falha, o degrau estilhaça. E a mágica desse abismo encantado te joga alguns degraus atrás, na última lição que foi finalizada com maestria.


Eu já estilhacei o último degrau dezenas de vezes. Falta só aquilo ali pra chegar do outro lado — mas é bem ali que eu falho. Às vezes na resistência, às vezes no conhecimento, muitas vezes no amor.


Na semana passada, depois de planejar como eu ia dinamitar esse abismo desgraçado, eu encontrei uma palavra que mudou tudo.


Acho muito difícil agradecer a esses acontecimentos que botam a gente no abismo— mas descobri que consigo abençoar. Tipo assim:


"Não consigo te agradecer por ter escolhido não crescer junto comigo. Mas consigo abençoar a honestidade que tu teve contigo ao fazer essa escolha."


"Não consigo te agradecer por ter morrido tão cedo. Mas consigo abençoar tua partida e tudo o que ela trouxe pra minha vida."


"Não consigo te agradecer por ter sido um cometa na minha vida. Mas consigo abençoar tudo o que a tua passagem iluminou dentro de mim."


Agradecer, às vezes, me parece uma forçação zen. Como é que a gente vai agradecer por ter sido abusada, por ter sido abandonada, por ter sido mal tratada? Há coisas-não-resolvidas para as quais agradecer ainda me parece completamente falso.


Mas abençoar… só o som da palavra já me parece melhor. Implica em encontrar, dentro da coisa, o que te mudou pra melhor. O que na verdade foi um presente porque inaugurou uma versão de ti que nunca teria nascido sem ela. E reconhecer o valor disso sem passar pano pro tanto de trabalho que deu atravessar tudo isso.


Entendi que abençoar é uma forma de agradecer. Ou melhor: de não amaldiçoar.

Amaldiçoar é que dá o sobrenome "não-resolvido" à coisa.


Enquanto a gente pensa "queria que isso não tivesse acontecido", "por que isso aconteceu comigo", "espero que fulano se rale na mesma proporção com que ele me ralou" e outras maldições, a coisa permanece não resolvida. Pra resolver, tem que deixar o rancor pra trás. Ou pelo menos abraçar a versão de ti que poderia viver sem rancor.


Uma pessoa especial me disse que o conhecimento que a gente adquire depois de vivenciar situações desafiadoras é "a honra dos que vivem". Pra mim, fez sentido — quando passei a me sentir honrada pelas vivências que eu tive, até as mais doídas, percebi que na verdade elas não me roubaram nada.


Elas me aproximaram dos abismos que me correspondia atravessar. Das provações que eu precisava superar, das versões de mim que eu precisava conhecer. E pra isso, estranho seria ter qualquer outra resposta que não abençoar.

 
 
 

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