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Era grande e misterioso — foi esse que eu escolhi


E gostei.


Nesse final de semana participei de uma vivência em Guapé, uma cidade super afastada no interior de Minas Gerais. Depois de Varginha, lá onde é pra ter os ETs.


Eram 15 pessoas, todas elas mais velhas que eu, reunidas para três dias de atividades variadas contemplando práticas tipo bioenergética, biodança e um tanto de outras coisas que vão muito mais além.


Foi a minha quarta experiência nesse tipo de encontro e foi de longe a melhor de todas. A mais forte, a que eu mais me entreguei, a que eu mais aprendi (e olha que só se passaram três dos 21 dias de movimento que a vivência desencadeia). Quem já participou de algo assim sabe que é impossível descrever a conexão que a gente cria com as pessoas que tão lá com a gente, que conhecemos e convivemos por tão pouco tempo. E não é sobre isso que eu quero falar.


Eu quero falar sobre o estojo de couro preto.


A última atividade do grupo foi uma roda de desapego. Não era desapego tipo roupa velha, era justamente o oposto. Cada um tinha que levar um objeto muito querido para si, com altíssimo valor emocional, mas que representava um ciclo que precisava ser encerrado.

Sentamos em círculo na frente de uma cachoeira e, em silêncio, cada um colocou seu objeto no centro.


Funcionou assim: a pessoa mais velha do grupo tinha a preferência na escolha. Ou seja, foi a primeira a levantar, se dirigir até o centro, e escolher o objeto que mais chamou a atenção dela. A moral aqui é que a gente não sabia ainda qual era a história de cada objeto — na verdade a gente nem via direito quem tinha colocado o quê lá no meio. Tinha que confiar no objeto que mais te chamava, contar pro grupo porque tu escolheu aquele em especial, e na sequência a pessoa que levou o objeto se identificava e contava a história dele.


Gente…Gente. Foi bizarro.


No centro da roda havia três aneis, jóia mesmo. Havia uma rolha com uma data escrita à mão. Havia uma caneca, uma galinha de pano, um coelho de porcelana. Vários outros objetos… e ele. Um estojo de couro preto enorme. Fechado com um zíper daqueles fortes, feitos pra proteger algo de qualquer impacto que pudesse vir de fora.


O meu objeto foi pego logo no início então quando chegou a minha vez de fazer a minha escolha, o círculo tava praticamente cheio. Eu peguei um dos anéis na mão. Peguei um escapulário na mão. Peguei a rolha na mão, li a data. E então olhei pro estojo e ouvi ele cochichar pra mim: "Ei, pssst. Vai dar bom isso aqui hein".


Comecei a abrir o zíper para ver o que tinha dentro e a facilitadora me pediu para não abrir.

E foi exatamente nesse momento, em que eu fui impedida de ver o que tinha dentro dele, que eu sabia que ele era meu.


Botei ele embaixo do braço e sentei no meu lugar, com ele fechado. E disse pro grupo:


"Passei o final de semana todo falando sobre o projeto grandioso que eu tenho pra minha vida. Eu já tive a oportunidade de escolher menos e se tivesse seguido esse caminho, nem estaria aqui. Eu não quero menos. Eu sei exatamente o tamanho do meu sonho e eu não vou abrir mão de conquistar ele assim, grandioso. E algo nesse estojo me faz sentir que aqui dentro tem algo assim, grandioso também.


E não saber o que tem dentro dele é exatamente o que me faz sentir que ele me pertence. Porque no meu projeto grandioso, tem amor. Um amor grandioso. E quando o assunto é amor a gente não tem como saber exatamente o que vai acontecer, exatamente o que tem ali. A gente tem que sentir. E se sentir que é nosso, tem que assumir. Botar embaixo do braço e dizer: "isso aqui me pertence", mesmo sem saber exatamente o que tem ali.


Eu poderia ter escolhido outros objetos que estavam na cara, não tinha dúvida sobre o que eles eram. Mas isso não é o amor. O amor vem com dúvidas, o amor vem com mistério, o amor vem com uma aposta de que vai dar certo. Vem com um salto de fé, ainda mais quando a gente sente que é grandioso. Se vai dar certo ou não, o que exatamente ele é… a gente só descobre se faz a aposta. E eu aposto com tudo."


Eu era a mais nova da roda, e quem se levantou pra se identificar como dona do estojo foi a primeira a iniciar a atividade, a mulher mais velha da roda. Ela pegou o estojo dos meus braços, abriu o zíper, e puxou o que tinha dentro pra fora.


Os minutos seguintes foram uma mistura de suspiros, choros, gemidos de surpresa e incredulidade. Senti que a cachoeira tinha mudado de lugar e naquele momento, vertia dos meus olhos.


Na medida em que os objetos foram sendo escolhidos e os respectivos donos se identificando, foi surreal perceber a linha de costura entre as histórias. O que pra um era tragédia, pra outro era salvação. O que pra um era descoberta, pra outro era reencontro.

Eu me ouvi falar todas aquelas coisas sobre por que tinha escolhido o estojo preto e fui me dando conta de que mesmo que só estivesse percebendo aquele raciocínio ali, naquele momento, já vinha tomando decisões a partir dele há muito tempo.


Se tu me perguntar se eu quero vários pequenos ou um grande, eu vou no grande. Até no trabalho me dei conta de que sou assim. Outro dia me perguntaram minha opinião na distribuição de uma verba de mídia, se em várias placas pequenas por diferentes bairros da cidade ou só uma empena (aquele anúncio grandão que fica na lateral dos prédios). Chuta qual foi a minha sugestão.


A gente não precisa se prender nesses conceitos de "essa sou eu sempre", até porque eles acabam nos engaiolando a longo prazo. Mas a sensação de reconhecer um padrão que se repete e o motivo pelo qual a gente permite que ele aconteça é uma fichona absurda que cai lá dentro.


No amor, eu sou do time da empena.


E mesmo depois de fazer a aposta e não ganhar o prêmio, escolheria ela de novo. Porque tá vindo de dentro, tá vindo de coração, e quando é assim, não existe cenário em que a gente não ganha o prêmio.


Chorar as pitangas pelo prêmio nível 10 que não veio é fechar os olhos pro fato de que pra ti, talvez exista um prêmio nível 100 — que tu nem tinha te dado conta que era possível. E passa a ser possível quando tu acredita que é.


Ah, e o que tinha dentro do bendito estojo de couro preto?


Qualquer dia desses, quando eu entender exatamente o que ele representa na minha vida, eu conto.


Mas a aposta valeu à pena no nível 1.000.000.000 pra mais.

 
 
 

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