Essa gente que escreve carta
- Dimitria Back Prochnow

- 12 de set. de 2025
- 3 min de leitura

Não é bilhetinho, cartão de presente ou mensagem de whats — é declaração escrita à mão mesmo.
É o tipo da coisa que faz a gente se perguntar: "precisa mesmo?".
Podendo enviar pelo celular, podendo escrever numa folha e jogar fora, podendo contar pra uma amiga, podendo ficar em silêncio — precisa mesmo escrever uma carta?
Todo mundo que alguma vez na vida já escreveu uma carta de amor sabatinou a si mesmo com variações desse questionamento.
E é aqui que a mágica acontece: na maior parte das vezes, precisa.
Se a gente tá contemplando aquela possibilidade, é porque tem algo importante que precisa ser dito e pra carregar o verdadeiro peso das palavras que a gente quer dizer, não pode ser entregue por nenhum outro canal.
Precisa ser uma carta. E precisa ser escrita a mão.
Uma das maiores honras — e grandes prazeres — da minha vida é ter tido acesso a cartas de amor. Falo das minhas, que eu recebi ao longo da vida e guardo com muito carinho, mas principalmente das cartas dos outros.
De quem escreve e me mostra antes de entregar, como um testemunho de bravura perante um desfecho impossível de prever. De quem recebe e tempos depois sabe-se lá por que motivo me mostra, com um olharzinho danado de "a vida agora é outra, mas eu já vivi isso aqui também, olha só."
Testemunhar essas histórias me ensinou muito sobre a importância de botar pra fora o que a gente sente. Porque botar pra fora assim, por escrito no papel com a força do nosso próprio punho, é assumir pra sempre que cada uma daquelas palavras foi escolhida por nós. Que aqueles sentimentos aconteceram de verdade. Que aquela história nos pertence — e tá grande demais para permanecer sob a custódia de uma pessoa só.
Toda carta de amor é uma declaração de grandeza.
É isso que faz a gente se retorcer quando precisa escrever e não consegue: porque é obrigado a assumir que é importante. É isso que nos toca quando a gente recebe sem estar esperando: porque alguém assumiu e aquela grandeza agora é nossa também, o que nem sempre é conveniente.
Portanto, não se engane — uma declaração não é sempre uma coisa linda.
Essa grandeza digna das cartas de amor pode ser incrível ou pode ser horrível, como tudo o que acontece entre dois corações conectados a duas mentes diferentes. Como tudo o que pode acontecer na conversa entre quem somos hoje, todas as versões que já fomos no passado e todas que ainda seremos no futuro.
É por isso que escrever uma carta é colocar a história no tempo dela.
Se é do passado, que lá permaneça. Se é do agora, que venha para a luz. E se é do futuro, que seja lançada e nos liberte para o intervalo até o seu momento de acontecer.
Cada palavra escrita é uma âncora que sustenta a vida da história no seu próprio tempo. Esse é o verdadeiro desafio: identificar o tempo ao qual a grandeza pertence e permitir que ela viva lá.
Nem sempre é fácil assumir a grandeza do que já foi e não é mais.
É ainda mais difícil assumir a grandeza de um futuro que pode nunca acontecer.
E bancar a grandeza que mora no agora… É o que faz a gente prestar atenção. Sentir. Mas sentir mesmo. Por isso que nem todo mundo escreve cartas de amor.
Porque poucos são os que tem a coragem de bancar a grandeza no momento em que ela se apresenta.
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