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Eu não penso como minhas amigas


E descobri que isso pode ser a melhor coisa do mundo.


Ontem saí pra jantar com três amigas que eu conheço há 15 anos. O quanto cada uma já viveu e mudou nem precisa dizer; e embora a gente tenha tido momentos mais próximas ou mais afastadas, o vínculo sempre esteve lá.


Quem tem amizades assim sabe que conseguir juntar todo mundo no mesmo dia passa a ser um milagre, tanto que nesse grupo, essas reuniões são um falatório sem fim com todo mundo se atualizando das novidades (geralmente no volume máximo, o inferno na terra para os restaurantes).


A primeira da fila pra fazer a atualização era1 eu, e o que eu tinha pra compartilhar era controverso. Mexeu comigo, não era 100% correto, eu sabia que elas não iam gostar. Ou melhor: aprovar. Mas ainda assim, queria compartilhar. E compartilhei.


Causou desconforto, me senti julgada, fiquei na defensiva. Me senti diferente. E ao me sentir diferente… Me fechei.

O papo continuou em outros assuntos, muitos deles permeando relacionamentos, casamentos, filhos. E nada do que as minhas amigas diziam fechava com as minhas opiniões. Já toda travada e me sentindo extremamente deslocada, fui no banheiro.


Trancada naquele cubículo me lembrei de quando eu tinha 17 anos, ia pra festas com as minhas amigas, e uns 20 minutos depois dizia que ia no banheiro. Me trancava lá e esperava o tempo passar. Não sabia o que fazer com o que eu sentia, na verdade nem sabia o que eu sentia. Não sabia se eu queria ir embora, se queria ficar com elas, se queria beijar alguém, não tinha a menor ideia. Então me isolava no banheiro e tentava me ejetar do espaço-tempo.


Pensei "meu deus, que volta ao passado". Será que estar com as minhas amigas de tanto tempo me faz regredir a uma versão de mim com a qual eu não me identifico mais? Pensar nisso me doeu. E aí respirei bem fundo, fiz meus ancoramentos, chamei todas as minhas egrégoras e voltei pra mesa.


Deu cinco minutos e uma das minhas amigas segurou meu braço com carinho, olhou bem no fundo do meu olho e disse, "amiga tu tá bem?". Ah, pra quê.


Enchi o olho de água e desabei ali mesmo.


Ao invés de ir embora ou de trancar a minha expressão, eu disse tudo pra elas. Disse que tava mudando — de novo. Que tava me transformando em alguém que eu ainda não conhecia por completo, mas que com certeza me levaria pra lugares diferentes. Lugares distantes, e não necessariamente geograficamente. E que nesse processo tinha gente que caminhava comigo há muito tempo ficando pra trás. Disse que eu sabia que as minhas opiniões eram diferentes e que tinha muito medo de não conseguir ter mais elas na minha vida.


E então eu vivi um dos momentos mais amorosos, mais românticos, mais verdadeiros de todos os meus 27 anos.

Eu senti a presença total de todas elas se voltar pra mim e a força do sentimento com o qual elas me disseram que tudo bem. Que elas sabiam que eu era assim, que elas gostavam demais de ouvir minhas opiniões, que era um prazer conviver com o meu diferente. Que elas sabiam que pensavam de forma mais tradicional mas que de jeito nenhum isso impedia elas de apreciar o meu jeito de ver as coisas. E que se eu permitisse, elas estariam sempre ali — talvez nem sempre concordando, mas sempre acompanhando, sempre lado a lado, sempre juntas.


É claro que a conversa foi muito mais longe, elas disseram muito mais coisas, eu também. Mas a moral aqui é que esse momento foi um marco na minha transformação.


Com amor e compreensão, as minhas amigas me possibilitaram romper um padrão de comportamento que sempre me fez muito mal e que eu honestamente achei que já tinha superado. Ao me abrir ao invés de me fechar, compartilhei meu movimento com elas. Convidei essas pessoas tão especiais pra mim para dentro do meu mundo, mostrando o que tinha de mais incrível e de mais contraditório lá dentro. E eu só consegui fazer isso porque elas seguraram na minha mão, olharam no meu olho e me disseram: vai.


A amizade, assim como o relacionamento amoroso, precisa ter seu vínculo renovado com frequência. Ainda mais essas de longa data, que a gente quer que sobrevivam às transformações.


E renovar o vínculo significa procurar o que é que compõe a trama do fio que nos conecta. É a convivência? É o sentimento que uma tem pela outra? É um interesse em comum? Uma visão de mundo, de família, de amor?

Entendi com esse gesto tão generoso das minhas amigas que essas respostas podem mudar. Que o fio que nos conecta não precisa ser o mesmo, e que quando a gente permite que ele mude, ele pode ser ainda mais forte. Porque é de verdade, é um fio novo, que faz sentido no aqui e agora — e não um fiapinho antigo lutando pra não arrebentar.

Só que pra renovar o fio a gente precisa correr o risco dele arrebentar.


Ninguém disse que vai concordar comigo pra sempre, e na verdade nem precisa. O único acordo vitalício, que a gente fez de mãos dadas, é o de sempre abrir espaço para conhecer e buscar compreender todas as versões de cada uma de nós que vierem a nascer daqui pra frente.


E com esse coração, entrelaçadas pelo fio dessa conexão, de se amar.


 
 
 

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