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Eu queria andar de salto mas ganhei de presente a sandalinha da humildade


Ou: o que acontece quando a gente tá se achando além do que realmente é.


Eu ouvi, antes de ver ou sentir.


O barulho do vidro estilhaçando sob o meu pé ficou encrustado na minha memória até hoje, um pouco pelo medo do quanto podia ter me machucado e outro tanto pela surpresa.


A correia da minha persiana travou e numa tentativa digna do apressado que come cru, arrastei o primeiro móvel que vi na frente pra tentar chegar lá no alto e destravar. Esse móvel era um negocinho bonitinho, meio estranho, com um tampo de vidro — que deu adeus no segundo em que foi pisado.


Tô te contando essa história porque alguns dias antes disso acontecer, eu escrevi um texto sobre uma escada de vidro.


Nessa escada, cada degrau representava um teste que a gente tinha que passar para conseguir de fato se transformar numa versão melhor de quem somos. No último degrau, o vidro era da espessura de uma folha de papel e o teste tinha a ver com o peso do nosso coração.


Subindo nesse último degrau com 1g de vontade de ter sido a versão anterior, que não tinha sido obrigada a se transformar, ele estilhaçava. Porque a transformação de verdade só vem quando a gente desapega desse passado fictício onde a gente poderia ter sido alguma coisa diferente do que é.


Quando escrevi esse texto, me sentia vitoriosa. Me sentia transformada, mais forte no meu novo eu e mais pronta pro meu futuro pós-escada.


Até materializar o bendito do degrau de vidro na minha realidade do aqui e agora — e precisar me confrontar literalmente com o fato de que eu não tinha passado no último teste.

Com muita relutância, me dei conta, naquela época, de que parte de mim ainda queria ter tido a chance de viver o universo paralelo onde eu não tinha precisado me transformar.

Esse ruído na minha percepção sobre quem eu sou e onde estou no meu processo de transformação já se repetiu algumas vezes — e frequentemente vem à tona quando escrevo. É engraçado porque preciso escrever pra enxergar que ele existe, e no momento em que enxergo que ele existe morro de vergonha de ter tido a audácia de colocá-lo em palavras.


Me questiono sobre quem sou eu pra achar que sei das coisas e falar sobre elas. Me questiono sobre quem sou eu pra achar que sei das coisas. Me questiono quem sou eu.

Tenho vontade de quebrar no meio todas as minhas canetas e é aí que eu me lembro que o ato de colocar pensamentos e sentimentos em palavras é o que garante a clareza da percepção.


E essa é uma metáfora pra vida: se a gente não se expõe, não se descobre.


Por escrito, a história sai com a voz do nosso eu-do-agora. É uma forma de registrá-la com fidelidade e protegê-la das distorções que viriam com o eu-do-futuro, que já tem tanto mais pra observar e concluir do que foi vivido.


Quando sinto medo das minhas palavras ou receio pelos meus escritos, lembro que o universo não lê certo e errado. Ele lê a vibração das nossas escolhas e nos dá mais daquilo que a gente escolheu pra si.


E enquanto a gente escolher olhar para si com honestidade, vai receber exatamente o que precisa pra dar o próximo passo. Às vezes de salto…


E às vezes de sandalinha.

 
 
 

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