Navegando por instrumentos no mar do entre-vidas
- Dimitria Back Prochnow

- 12 de set. de 2025
- 3 min de leitura

Não se enxerga um palmo na frente — tem que confiar.
Passei uns bons cinco dias dormindo no sofá da sala. É grandão, tava confortável, não posso dizer que foi ruim. Mas o negócio não era ele — era o quarto.
Experimentei umas quatro festas com grupos diferentes de amigos. Amo a companhia de todos, não posso dizer que foi ruim. Mas não senti que pertencia a nenhuma delas.
Engoli dois livros gigantes em uma semana. Fazia tempo que não me dedicava a algum prazer fora das telas, não posso dizer que foi ruim. Mas no fundo eu sabia que o que eu queria pras minhas noites não era uma sessão de leitura de 5h.
Já faz algumas semanas que eu to nessas e ainda não consigo enxergar pra onde eu to indo. Consigo sentir, isso sim — sei que to no caminho certo e é quase como se pudesse sentir o cheiro de "terra à vista". Mas ainda não consigo ver.
Essa segurança sobrenatural sobre o que está por vir é novidade pra mim. Nunca senti isso, ainda mais assim — sem enxergar nada no agora que indique o que tá vindo logo ali. Pode ser um iceberg e eu sou o Titanic, mas acho mais provável que seja um continente novo e eu sua descobridora.
To entendendo com muito custo que estar introspectiva não significa estar deprimida.
Dormi na sala porque terminei um relacionamento que eu achei que ia pra vida toda. Porque depois dele eu abri as portas do meu coração pra um novo amor que era na verdade um novo tipo de erro. Porque a mudança se faz necessária e a gente não pula de um nível pro outro direto — tem que fazer o esforço de levantar uma perna e se içar pra cima.
Não gostei de nenhuma festa não por causa da música ou do estilo das pessoas. E sim porque tive a sensação de que o que reunia as pessoas naqueles lugares não era a vontade de celebrar, e sim a necessidade de esquecer. De desligar o botão da consciência, encher a cara, se drogar, adiar o retorno à realidade. Eu costumava achar que isso às vezes era divertido… mas não mais. Me sinto mal comigo mesma quando me passo — não só por ter dito ou feito coisas que não faria sóbria, mas porque já sei que não é isso que eu quero. E se continuo fazendo mesmo sabendo que não quero, é porque me falta coragem de encarar o vácuo. Não mais.
Li dois livros gigantes porque eles me aproximaram do tipo de sensação que eu quero viver. E que maravilhoso é sentir o gostinho do que a gente quer viver antes daquilo de fato chegar. Se permitir imaginar, na sua própria companhia, e saborear a antecipação.
Um belo dia terminei de me maquiar e fazer os cachos no meu cabelo e parei de lingerie nova na frente do espelho. Olhei no meu olho e realmente me vi. O que tá chegando ali na frente na minha vida eu ainda não consegui ver, mas a minha versão de agora, nesse dia, eu vi. E eu me amei.
Entendi que talvez não precise ter tanta pressa pra chegar na minha próxima versão. Que essa de hoje é linda, é vulnerável, é audaciosa. E tá tendo a oportunidade de vivenciar a si mesma de um jeito que não volta mais. Tá tendo a oportunidade de avaliar e construir a própria vida de um jeito que assim que pisar em terra firme, vai saber que tudo valeu a pena.
Tenho tido conversas comigo mesma e me dito, com todas as letras, que eu me perdoo por tudo. Que eu sei que as coisas poderiam ter sido diferentes, mas que esse é um desejo inútil. O tempo não volta e a gente faz o melhor que pode com a cabeça que tem naquele momento. E se eu posso encontrar carinho pela versão de hoje, posso encontrar pra anterior também.
Eu me digo que eu me perdoo e me aceito.
E o entre-vidas passa a intimidar um pouquinho menos… Porque eu não to sozinha. To com aquela que me olhou de volta no espelho e na verdade sempre esteve — e sempre estará — aqui junto comigo.
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