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Ninguém resiste a uma história triste


E é por isso que eu tô caindo fora do masoquismo criativo.


Na primeira vez que as minhas mãos encostaram em um oráculo eu puxei uma carta com a imagem de uma mulher que tinha o mundo na garganta.


Eu não sabia se ria ou se chorava quando li a explicação dela sobre a missão de compartilhar, registrar, comunicar ou, como eu gosto de dizer, botar pra fora. Naquela época eu vivia com o rosto empipocado com uma dermatite atópica que ninguém conseguia diagnosticar e a única pessoa que se arriscou foi uma bruxa nariguda com a língua afiada. "Isso aí é um colar de raiva", ela disse, "experimenta começar a botar pra fora pra ver o que acontece".


Foi esse o momento em que eu comecei meu projeto de expressão aqui no Medium. Que comecei a me posicionar mais na vida real, a arquitetar a minha empresa, a começar a me mostrar pro mundo como eu realmente era.


E eu descobri que eu era boa nisso. Em botar a boca no trombone, em dar forma pro que muita gente sentia mas não sabia descrever, em enfiar o dedo na ferida e futricar lá até entender se tava sarando ou apodrecendo.


Quanto mais eu falava, mais eu me reconhecia. Parecia que eu nunca tinha olhado pra mim de verdade até aquele momento. Ou talvez tivesse olhado, mas nunca tivesse escutado.

Com o tempo, fui ganhando mais confiança e entendendo com que voz eu falaria sobre o que eu vi nos lugares mais feios dentro de mim. Ou talvez nem fossem tão feios, mas aquela não era a voz da princesinha impecável que eu sempre achei que eu fosse. E justamente por isso esses foram textos que me renderam muita visibilidade. Recebi mensagens muito francas e muito fortes de gente que eu nem conheço — e algumas de quem eu conheço também.


A sensação de expressar meus posicionamentos e ser vista, escutada e reconhecida por eles foi um bálsamo, como se eu mesma só tivesse aprendido a me respeitar depois de parar de me esconder. Vivi quatro anos com meu corpo de escritora nutrido por isso.

Até o dia em que inventei que precisava escalar um vulcão ativo e passei 13 horas caminhando e escutando a minha voz dentro da minha cabeça. Foi um pouquinho depois da metade do caminho que eu entendi que aquela pessoa, com aquela voz, nunca ia chegar ao cume.


Comecei a me dar conta do quanto a facilidade que eu desenvolvi para falar das minhas dores me impedia de acessar uma voz que conta histórias de felicidade. Que acredita em mim e no meu próprio final feliz. Era como se a minha criatividade tivesse se transformado em uma sanguessuga que só queria sangue de batalha — e ao mesmo tempo em que me reconheci Aquiles, imbatível até quando perdia, desaprendi a soltar a espada.


Ou pior: enxergava qualquer coisa que não fosse campo de batalha como flecha no meu calcanhar. Sempre que escrevia um texto sem batalha, olhava pra ele e não tinha coragem de publicar. Me parecia medíocre, superficial ou uma ladainha que seria desmascarada em segundos por qualquer um que não vivesse o mesmo.


E esse aqui é o pulo do gato.


Falar do que nos machuca e faz sofrer é importante e necessário — ao mesmo tempo em que é um buraco sem fundo. Um vórtex com um magnetismo insano que puxa qualquer um com um mínimo de ressonância com o que a gente tá falando pra perto daquela narrativa. Faz parecer como se a única realidade fosse aquela.


Entendi que futricar na ferida nem sempre mostra pra gente se ela tá sarando ou apodrecendo. Às vezes só dói mesmo. E enquanto escritora, eu virei refém do meu masoquismo criativo — e, através dos meus textos, abri as portas desse buracão pra um monte de gente entrar lá comigo.


E o fato é que tem uma galera querendo comprar ingresso premium pra entrar. Eu sei porque até agora era eu na bilheteria.


Tem muita gente que só consegue sentir alguma coisa quando dói. Que só consegue se conectar consigo mesmo quando sofre. E que busca outras pessoas que reverberam isso pra pelo menos ter companhia enquanto tá lá no buraco. É um senso de pertencimento extremamente sedutor, como se só a gente que tá lá no buraco estivesse vendo a vida como ela é — e o resto do mundo tá enganado ou adormecido.


Fui e voltei do buraco milhões de vezes me sentindo mais sábia e especial por saber o caminho — e agora senti que deu.


Quero escrever sobre como é tirar uma ideia do papel e ver ela ter sucesso.

Sobre como é me comprometer com a minha alimentação e os meus exercícios e estar vibrando pelo corpo mais lindo que eu já tive.


Sobre como é fazer parte de uma família que perdeu alguém especial de forma muito repentina e hoje tá em paz, tá feliz, tá em harmonia.


Sobre como é enxergar dinheiro como solução e possibilidade ao invés de problema.

Sobre como é amar e ser amada — e viver esse amor como alguém merecedora dele. E justamente por isso saber que daqui pra frente só melhora.


Não posso diminuir minha jornada criativa até aqui reduzindo tudo que eu já escrevi a um grande chororô. Às vezes tenho vontade de apagar tudo, mas sei que seria injusto comigo mesma e que gerei consciência de valor com o que foi publicado. Mas agora quero usar a mesma habilidade pra criar um vórtex diferente. Um que empurra pra cima, não pra baixo.

Que acredita não apenas no final feliz, mas na história feliz — o que pode ser o movimento mais ousado que eu já fiz como pessoa, como mulher e como escritora.


Se quiser vir comigo, vou apreciar tua companhia. Só não repara no arranhado que essa voz ainda tá saindo meio rouca.


 
 
 

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