O alinhamento cósmico de um felizes para sempre
- Dimitria Back Prochnow

- 12 de set. de 2025
- 3 min de leitura

Era uma vez um menino com medo da vida e uma menina com medo do amor.
I
Os dois tinham vontade de viver. Viviam buscando mais, mas brigavam com os próprios medos de conseguir exatamente o que queriam. Ele temia o fracasso, ela a solidão.
Era como se cada um fosse um planeta em descompasso com o próprio sol.
Sabiam, no núcleo mais profundo de cada um, que seus sois estavam lá. De tempos em tempos, sentiam o calor daquele astro que orienta quem somos e o que queremos fazer. Sentiam que aquele sol estava lá, mas não conseguiam se aproximar.
Quando ele e ela se encontraram, o compasso de cada um mudou. Pouco a pouco, perceberam que quando estavam juntos, não tinham mais medo daquilo que sempre quiseram. Quando um orbitava pertinho do outro, entravam em harmonia com os próprios sois. O céu todo sentiu.
Quando menos esperavam, se deparavam com uma coragem de ser, viver e sentir que nunca haviam sentido antes. Sentiam o calor e a clareza de finalmente entenderem que nunca estiveram em descompasso, e sim em uma rota de aproximação um do outro.
Menino e menina resolveram caminhar lado a lado.
Orbitaram juntos com maestria. As estações se passaram e mesmo no mais frio dos invernos, cada um sentia o calor do seu próprio sol. Aprenderam que esse calor alimenta, fortalece, orienta. Aprenderam que quando um estava mais distante do próprio sol, o outro também sentia.
Todos esses movimentos naturais para quem faz parte do mesmo sistema solar.
II
Num dia como outro qualquer, perceberam que estava frio. Ela buscou seu sol e se tranquilizou ao perceber que ele estava lá, bem pertinho. Sabia então que devia haver algo de errado com ele. Buscou-o e para a surpresa dos dois, ele também estava em harmonia com o seu sol.
De onde então, vinha o frio?
III
Num dia como outro qualquer, o calor pareceu forte demais. Eles já conheciam os sois um do outro e sempre se aqueceram com conforto, nunca demais ou de menos. O mistério demorou a se solucionar — ela e ele fizeram de tudo para encontrar a solução. Orbitaram mais perto, mais longe, mais rápido, mais devagar, tentaram até se distanciar dos próprios sois para ver se o calor entre ambos voltava a ser como era antes.
Eles eram os mesmos, mas não conseguiam identificar o que era diferente.
E então, num dia como outro qualquer, entenderam. Não eram eles — e sim seus sois que haviam mudado.
O sol dela aquecia em pulso, o dele em constância. Eram fogos diferentes e nenhum dos dois planetas sabia como tinham chegado até ali sem perceber.
Como é que brilharam juntos tanto tempo sem notar que o fogo não era o mesmo?
IV
Ela e ele entraram em desespero. Com fogos diferentes, o calor não aquecia, mas queimava. Um poderia se afastar de seu sol para se aproximar da órbita do outro, mas parecia cada vez mais difícil sobreviver no frio.
Perceberam que o único sistema solar que fazia sentido para eles era o que aquecia a ambos. Não queriam ser motivo de um inverno perpétuo para o outro.
Perceberam que a força do seu sistema solar estava diretamente relacionada com a força com a qual orbitavam os próprios sois — e não podiam (nem queriam) aceitar.
V
Foi assim que o alinhamento cósmico entrou em ação novamente; e a mesma força que gerou a rota de aproximação se reajustou.
Por vontade própria, os dois planetas orbitaram juntos uma última vez.
Depois se desamarraram, se despediram, e seguiram seus próprios rumos, brilhando em compasso com os próprios sois.
VI
Planetas que se alinham nem sempre permanecem alinhados para sempre. Às vezes, negligenciam os sinais de que há um descompasso em andamento — e testemunham a aniquilação do calor que sustenta a própria vida por ignorância, ou medo de mudar de órbita.
O planeta aniquilado definha até o esquecimento. O que fica é obrigado a carregar o descompasso— e a resolvê-lo sozinho porque, afinal de contas, não mudou de órbita. Então precisa descobrir como se realinhar dentro daquele espaço que agora o prende com o dobro da força.
Às vezes, a aniquilação é mútua. E o que antes era a força natural de uma aproximação cheia de vida se transforma em ruína.
Para os dois planetas dessa história, felizmente não foi assim.
Como retribuição pelo respeito ao movimento sugerido, o cosmo permitiu que o magnetismo entre os dois planetas permanecesse (mesmo que em órbitas diferentes). Dessa forma, mesmo que estivessem em outros alinhamentos a anos luz de distância, podiam sentir um ao outro. Vivos, quentes, em movimento.
E isso era motivo para orbitarem com ainda mais força nos próprios universos.
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