O efeito tatu-bola: quando a vontade de ficar sozinho vira um decreto disfarçado
- Dimitria Back Prochnow

- 12 de set. de 2025
- 3 min de leitura

A resposta para quebrar esse hábito não é fácil, mas é simples.
Foram quatro palavras.
O comentário foi feito de forma despretensiosa, sem intenção nenhuma de machucar. Foi por isso que eu disfarcei e na hora fingi que nem ouvi. Mas lá dentro foi como uma agulha em um balão —certeiro e sem volta atrás.
Comecei a murchar de dentro pra fora e em questão de minutos, tudo em mim se retraiu.
O corpo, a fala, a expressão facial, o estado de espírito. O encolhimento foi tão grande e tão rápido que quando eu vi, já tinha acontecido inteiro. Antes que eu pudesse frear, tinha virado tatu-bola.
A vantagem de virar tatu-bola é poder se retrair com discrição.
A gente não fica venenoso com palavras fortes ou assustador com cara feia. Fica redondinho, marronzinho, e aí se o outro não tá prestando bastante atenção, pode parecer que nem tem nada acontecendo mesmo.
Quando muito pressionado por uma posição, o tatu-bola tem uma arma secreta: um sorrisinho de monalisa acompanhado por "é só cansaço", "nada não, só tô mais quieta" ou "tô pensando numas coisas de trabalho".
Difícil acreditar que uma desculpinha bocó dessas cola, mas o segredo dela é justamente esse. Poderia ser verdade, e é por isso que funciona.
Eu, quando viro tatu-bola, dificilmente consigo me parar.
Tem que ser rápido, quando ainda sinto os pés no chão e o casco começando a querer fechar. No momento em que fechou e os pés se encolheram pra dentro, tchau.
Vou rolar pra longe de tudo e de todos e só o tempo de ficar sozinha comigo mesma vai me fazer voltar.
Acontece com cada vez menos frequência, mas quando acontece, sempre penso que gostaria de ter uma estratégia diferente. Um jeito de me honrar com introspecção sem me punir com isolamento.
Porque no fim das contas, esse é o problema do efeito tatu-bola: retrair a ponto de nos trancar. Geralmente em um espacinho de menos-valia, onde nada nem ninguém pode nos convencer a voltar pro nosso tamanho.
É aqui que a gente precisa conseguir lembrar que tamanho é esse pra poder se espichar de novo.
Agora é que o bicho pega — quem é que diz que a gente sabe que tamanho tem de verdade?
Quem é que diz que a gente confia no tamanho que tem, uma vez que a gente saiba qual é?
Conhecer o nosso "tamanho real" é um pepino.
Não só porque esse tamanho tá em constante mudança, mas porque é muito comum a gente mesmo se diminuir sem ninguém precisar empurrar. E, vez que outra, se achar maior do que realmente é.
Conhecer e confiar no seu tamanho é conhecer e confiar em si mesmo por inteiro.
Ou seja, nas coisas extraordinariamente lindas sobre nós e nas extraordinariamente feias também.
Todo mundo tem das duas — e olhar pra elas de frente dá vergonha.
Chega a ser cômico, né? Se o holofote tá no que a gente tem de bom, vergonha. Se ele vira pro que a gente tem de ruim, mais vergonha.
É tanta vergonha que olhar para si passa a ser um ato de coragem, não só de amor.
Entendi depois de muito tatu-bolear pelas minhas relações que o momento de retração generalizada acontece quando alguém me faz olhar de frente para algo meu que recebe menos atenção do que demanda.
Quanto menos atenção eu dedico para a tal coisa, mais tempo eu preciso para destravar. E vice-versa: quanto mais olho para a minha beleza e a minha imperfeição por conta própria, mais fácil fica de fluir pelos momentos de provação.
É por isso que tão pouca gente conhece o seu tamanho e menos ainda confia no que percebe. O grau de atenção dedicado a si é mínimo, mínimo, mínimo — até que TCHAN acontece alguma coisa e aí vem o tatu-bola cobrar a conta com o máximo.
Olhar para nós é responsabilidade nossa.
Qualquer pessoa que desencadeie um tatu-bola na gente merece gratidão pela luz que coloca em cima do que precisa ser olhado.
Não é que vá ser fácil, agradável ou indolor. Mas vai ser construtivo e vai trazer clareza, coisa que muitas das nossas relações não conseguem entregar.
Olhe para si.
Honre seu nome.
Fique do seu tamanho.
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