O medo da solidão pós-término não é o que a gente pensa
- Dimitria Back Prochnow

- 12 de set. de 2025
- 4 min de leitura

E quando a gente entende o que realmente é, passa.
Já não consigo mais contar nos dedos das mãos a quantidade de amigas que me disse que quer terminar mas que tem medo da solidão pós-término. Principalmente por se verem no momento em que imaginaram que estariam construindo suas famílias, com parceiros que imaginaram que seriam os escolhidos.
Mulheres de 20-e-muitos ou 30-e-poucos que tão se dando conta de que querem muito mais da vida do que estão conseguindo viver ao lado dos parceiros. Mulheres que querem vivenciar muito mais da sua sexualidade. Mais profundidade emocional. Mais liberdade de ousar, de compartilhar. E principalmente a tranquilidade de começar a construir sua família com a paz na mente de que sim, aquele é o cara. Só que elas tão sacando que ele não é — e só de pensar em abrir mão de tudo aquilo que já tá lá… desespero.
Imagino que muitas dessas amigas se sentiram livres pra comentar sobre isso comigo porque eu passei por isso. O nível da minha entrega dentro do meu relacionamento era fazer brainstorming do nome dos nossos filhos, conversar sobre aposentadoria, decidir se a longo prazo a gente queria morar em casa ou apartamento. Era tão bom sonhar junto, conversar sobre essas coisas, me perceber nesse momento da vida pro qual eu já me sentia tão pronta pra viver. Achei que tava no caminho.
Eu queria tanto esse momento que tava passando por cima das evidências que me mostravam que quando a hora de viver ele realmente chegasse, ele não seria como eu imaginava. E eu já tinha captado sinais de que não era. Lá dentro, minha mulher selvagem pirava tentando soar o alarme do "CUIDADO EMBOSCADA À VISTA". Mas era tão gostoso, eu queria tanto viver aquilo. E meu parceiro tinha tantas qualidades! A nossa convivência era tão boa, eu curtia tanto a companhia dele, eu devia estar exagerando.
Até que teve um dia que eu vi na minha mente algo que não pude mais desver. Estávamos na nossa casa, linda e equipada com tudo o que a gente precisava, e os nossos filhinhos na nossa volta. Mas entre nós… ressentimento.
Ressentimento abafado, porque a gente se respeitaria e se amaria profundamente, e jamais abriria mão um do outro. Tanto que preferiria morrer abraçado em vida.
Não. Quando eu vi isso, a decisão dentro de mim foi tomada. Eu me amo demais pra me confinar a uma vida que é menos do que eu sonho pra mim. Eu amo ele demais pra manipular o que ele sente e me fazer passar por alguém que tá 100% feliz ao lado dele.
Abrir mão desse relacionamento foi uma das coisas mais difíceis que eu já fiz e eu achei que o pós-término ia transformar o meu emocional num fiapo de aipim. Mas não foi assim.
Eu fui inundada por uma paz que há meses eu vinha buscando sentir. Sabia no meu coração que tinha libertado ele pra viver o caminho dele com alguém que pudesse apreciar a personalidade dele por completo. E senti que fiz as possibilidades do meu mundo aumentarem mil vezes. Cada vez que eu me olho no espelho, só consigo pensar: "obrigada, eu". Me acho incrível.
Porque eu cumpri com o meu papel de guardiã da minha própria vida. Eu tive a coragem necessária pra olhar pra algo muito íntimo, muito pessoal, muito especial pra mim, e bancar a decisão de abrir mão daquilo. Porque no fundo eu sabia que o que eu queria viver era diferente.
O nível de respeito que eu tenho por mim mesma hoje subiu o sarrafo pra tudo na minha vida. Não mexe comigo que eu não sou refém de ninguém — nem de quem eu amo. E se eu precisar agir, eu sei que eu tenho peito pra me bancar.
Agora, vamos lá: é claro que doeu. Doeu demais. Segue doendo. Mas dói diferente do que eu imaginei.
Foi num momento de solidão em que eu tava no fundo de um buraquinho pensando "puta que pariu sabotei toda a minha vida" que caiu a ficha. Que a solidão que eu sentia me incomodava não porque eu tava sozinha-solteira, mas porque ela me fazia lembrar que eu tava sozinha-no-universo.
Sou um ser humano na Terra. E por isso, eu estou sozinha. Cheguei sozinha e vou embora dessa vida sozinha.
Quando a gente tem um parceiro, uma família, amigos, a gente tem justificativas pra não olhar pra essa verdade. A gente se cerca de pessoas e pensa: "ufa, não to sozinha". Mas a verdade é que cada um tem o seu processo, a sua história pra viver. E sob esse aspecto, tá todo mundo sozinho. Ninguém pode viver pelo outro.
É nesse momento, em que a gente aceita que tá sozinho na Terra, que a solidão para de assustar. Porque se um está sozinho, todos os outros estão também. Então estamos todos juntos nas nossas solidões individuais — e pra sentir esse coletivo a gente não precisa de um parceiro, ou de um pai, ou de um amigo. A gente precisa de outro ser humano com quem a gente se sinta conectado — e que pode sim, muitas vezes, ser o parceiro, o pai ou o amigo.
Mas também pode ser o tio da padaria, a moça do metrô, alguém que tu conheceu numa viagem e nunca mais viu. Alguém com quem tu trocou três frases, alguém com quem tu compartilhou um olhar por 2 segundos.
Alguém que dentro de ti, te fez lembrar que tu não tá sozinha.
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