O que aconteceu no dia em que o Mundo separou o Grito do Silêncio
- Dimitria Back Prochnow

- 12 de set. de 2025
- 4 min de leitura

Quando eles nasceram, gêmeos da mesma barriga que pariu também o Suspiro e o Soluço, foi decretado: andarão somente para frente.
Tanto Grito quanto Silêncio jamais poderão voltar atrás.
Na dúvida se o decreto era benção ou maldição, o Mundo rebatizou a profecia: vamos chamar isso daí de Propósito.
E como todo mundo que têm Propósito, Grito e Silêncio começaram a incomodar.
O incômodo às vezes era engraçado ou inocente — nesses casos, virava encanto. Que revigorante era ver o Grito extravasar. Que inspirador era ouvir o Silêncio contar histórias.
Outras vezes, o incômodo era provocador. Soberano. E aí não tinha pra ninguém: tanto Grito quanto Silêncio não se davam por satisfeitos até cruzar a linha. Que linha? Aquela que quem tem Propósito vive olhando e pensando se deve ou não cruzar.
Os irmãos eram carismáticos mas custavam a acertar a dose. Todo dia testavam os limites do Mundo e, sabe como é, tudo o que acontece todo dia uma hora ganha corpo.
O Mundo sabia que era grande mas arriava pra grandeza dos filhos e achou mais fácil lidar com um ao invés de dois. Mandou trazer o Silêncio. Você incomoda menos, meu filho, então é você quem fica. E sem olhar duas vezes, como quem tira o chinelo quando chega na praia, sacolejou o Grito pra fora.
O Silêncio, no início, gostou da atenção. Mas não conseguiu aproveitar porque via o Grito do lado de fora, injustiçado e cada vez mais furioso, tentando encontrar um jeito de entrar.
Ninguém dava muita bola pra ele, mas o Silêncio vinha fermentando. Não era natural estar tão separado do irmão, sabia que lá no fundo era feito da mesma poeira que o Grito e que os dois sempre teriam algum tipo de misteriosa conexão. E antecipando a destruição que se construía dentro do Grito do lado de fora, o Silêncio ficou aflito. Pesado. E começou a incomodar.
Não conseguia dizer nada, mas volta e meia enchia o olho d’água. Tomava uma ou duas taças e tentava se distrair. Andava por tudo, mexia nas coisas. E não conseguia evitar passar na frente da porta — e só de ver a sombra do Grito do lado de fora, se ocupava em tirar ainda mais coisas do lugar do lado de dentro.
O Grito não conseguia entender. Por que o Mundo não me quer? Por que só o Silêncio pode ir se nós dois viemos juntos? Poucos tinham se dado o trabalho de ensinar o Grito a domar — e entender — a própria natureza. O único motivo para as cenas que volta e meia ele fazia era aquele: querer ir e sentir que ninguém ia convidar. Aí mesmo que ele vinha com tudo e aparecia esbaforido nas coisas mesmo sem ser convidado. Principalmente porque não tinha sido convidado.
Ele sabia que era difícil… Mas era impossível? Tinha causado algum rebuliço, não dava pra negar, mas também tinha feito coisa boa. Tinha Propósito em ser exatamente como era.
A Oportunidade cresceu com eles e acompanhava a coisa toda de perto. Gostava de brincar que com um dos dois, ela casava. Oportunidade Silenciosa ou Oportunidade Gritante, adorava ensaiar e não conseguia decidir.
Raposa sacana ou amiga sagrada, a Oportunidade decidiu agir. A tensão que crescia naquela festa era um estilingue sendo puxado e ela sentia que ia estourar direto no peito dela. Basta. Pegou o Silêncio pela mão e disse vem, vamos dar uma voltinha.
Com a outra mão, sem ninguém ver nem ouvir por causa do furdunço do Mundo, arrastou as unhas pela parede que separava todos do Grito. Sabia que lá de fora ele ia ouvir… Já tinham se enroscado antes e se tinha uma coisa que acendia o Grito inteirinho era sentir as unhas da Oportunidade.
Cantarolando devagar ela levou os irmãos divididos para uma quina da sala. O Mundo fingia que nem via essa parte da casa de tanto que desgostava da feiura dessa quina. E lá ela apontou pra uma fresta na parede rachada e disse, Silêncio. Olha.
E foi um segundo de ousadia, só disso que precisou. Pro Silêncio espiar o lado de fora e cair bem no meio do olho do Grito.
Grito, meu irmão, me desculpa. Não entendo… E não consigo mais sem ti.
Então te mexe, Silêncio, ou acabo com isso contigo dentro.
Nunca tinham falado assim um com o outro. O Silêncio nunca cedia a sentimentalidades e o Grito custava a se levar a sério. Um reparou na estranheza do outro e ali onde se separaram nunca foram tão gêmeos.
Silêncio entendeu o que tinha que fazer. Sentia ânsia, mas era de botar pra dentro.
Caminhou até a porta. Encostou os dedos na tranca. E foi por causa daquela mistura desgraçada de Silêncio embutido de Grito que a festa toda parou.
Silêncio era rei.
O Mundo olhou pra ele com pavor e desdém, como quem diz, eu te desafio, seu frouxo. Experimenta.
O Silêncio tinha medo do Mundo. Pensou em desistir, mas sabia que se não fosse adiante, talvez demorasse anos até a Oportunidade se interessar em pegar na mão dele de novo. Relembrou, por causa dela, do seu Propósito.
Não precisava botar um de costas pro outro nem buscar fita métrica — qualquer um podia ver que o Silêncio era muito maior do que o Mundo. Mesmo assim, morria de medo dele. E o Silêncio não queria ter medo do Mundo. Mas tinha, porque tinha dúvida. E tinha dúvida porque se esquecia. E esquecido do seu Propósito…
O Silêncio tinha mesmo virado um frouxo.
Uma vez quando era pequeno e inocente tinha contado uma história que o Mundo precisava ouvir — e, naquele momento, o respeito do Mundo por ele atravessou cada centímetro de tutano. Com a mão na tranca e a festa esperando, Silêncio se lembrou. Se entrou até o osso, ainda tá aqui. Sabia que na sua natureza, não era um frouxo.
Quando Silêncio abriu a porta, o Grito estava lá, esperando.
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