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O que realmente está acontecendo quando a gente quer muito (até demais) dar algo a alguém


Tem a ver com a parte de receber.


Algum tempo atrás li um livrinho danado chamado "A morte é um dia que vale a pena viver", da Ana Claudia Arantes, uma médica especializada em cuidados paliativos. É bem fininho, achei que ia ler numa sentada — mas precisei de semanas pra conseguir avançar até o fim.


E uma das falas da autora que mais me chocou veio já nas primeiras páginas, quando ela aborda as pessoas que imediatamente se prontificam a cuidar de alguém doente mesmo tendo as próprias vidas completamente bagunçadas. E que extraem, do movimento de cuidar do outro, o seu valor pessoal. Ou seja: "porque o outro precisa de mim, tenho valor".


"Porque posso entregar isso ao outro, sou importante."


"O tanto que posso fazer pelo outro é o quanto eu valho".


O que ela diz é basicamente que alguém que não cuida de si não deveria jamais se colocar em posição de cuidar o outro. Que inclusive é um desserviço fazer uma coisa dessas — é transformar o processo do outro em algo sobre si quando na verdade não é.


Esse insight fez com que eu me desse conta de que reproduzia essa dinâmica com frequência dentro das minhas relações sempre que sentia muita vontade de compartilhar uma história, uma reflexão, um acontecimento.


Vivia com a sensação de que tinha muito pra contar pros outros e tinha, na mesma proporção, uma frustração por não receber apreciação pelo que estava compartilhando. Por sentir que muitas vezes a história chegava na pessoa, mas não entrava. Que o insight era escutado, mas não necessariamente absorvido de verdade. Em resumo, que a reação do outro quase nunca estava à altura do que eu esperava que ela fosse.


E foi só depois do bendito livrinho que entendi que não tava compartilhando porque queria generosamente entregar algo que estava sob minha custódia, como uma história ou uma reflexão. Queria compartilhar porque queria me nutrir da reação — de ser vista, ouvida, percebida e apreciada por quem eu sou.


Constrangida por estar fazendo isso há tanto tempo sem me dar conta, comecei a esboçar caminhos para atenuar minha fome de reconhecimento. E imediatamente entendi que só estaria saciada quando a nutrição viesse de dentro.


Na prática, dei início ao que eu chamo de "Projeto Testemunha". Sempre que sinto muita necessidade de compartilhar algo, converso comigo mesma e me digo coisas como: "eu estava lá quando você viveu isso e realmente foi muito desafiador, que incrível que é te ver no lugar onde você está agora".


"Uau, que insight fantástico. Eu estou te acompanhando e você realmente tem uma habilidade diferenciada de conectar ideias e contar histórias."


"Nossa, chegar nessa conclusão não deve ter sido fácil. Eu te acompanhei durante todo esse processo e me sinto privilegiada por ter acesso a esse conhecimento."


Essa linha de auto-diálogo busca exercitar a perspectiva de testemunha de mim mesma, ou seja: eu estou apreciando minha presença. Eu estou me vendo, me escutando, me percebendo, me admirando, me respeitando. Eu testemunho os meus feitos e me congratulo pelas minhas vitórias, me consolo pelos meus tropeços, me amparo nas minhas transformações.


Tranquilizo a mim mesma me assegurando de que jamais estarei sozinha porque eu vou seguir aqui, me acompanhando de pertinho, até o fim dos meus dias.


Pode parecer desnecessário, afinal, como é que eu não vou estar comigo?! Eu sempre estive comigo. Ou… será que não? Quando comecei a prestar atenção nisso ficou ainda mais claro que estar comigo mesma não significava apreciar a minha trajetória, apreciar a mim mesma, me ouvir e me enxergar de verdade.


Então desde que comecei a me acompanhar com presença, a entrega que eu faço para outras pessoas através da minha fala ganhou outro tom. Diminuiu muito de volume e passou a ser de fato generosa, isto é: compartilho quando sinto no meu coração que devo e não me frustro se a mensagem não é apreciada. A minha parte, de entregar o que eu sentia que era meu para entregar, eu fiz. Se vou receber algo de volta já não corresponde a mim decidir — essa parte é do outro.


E é uma libertação imensa me expressar sem balizar o que eu vou dizer pela reação que vem de for. É uma libertação imensa ter uma audiência interna sempre disponível, sempre atenta, sempre apreciadora de mim.


E acima de tudo, é uma libertação imensa sentir o calorzinho de um coração sempre acompanhado. Por alguém que me quer bem, me nutre e me testemunha.


Por alguém que me ama.

 
 
 

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