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O que é, de fato, a história da nossa vida?


A gente não precisa saber de tudo.


Tinha alguma coisa nas lápides que me chamava.


Eu olhava para elas de longe e era como se o colorido das flores que ficavam nos pés de cada cruz se sacudisse com o vento dizendo, "vem cá, vem me ver de pertinho".


Lembro de pensar que aquilo era exatamente como uma cena de filme de terror em que a protagonista vai sozinha até um lugar onde obviamente alguma coisa vai dar errado.


Era para ser assustador, mas não parecia.


Nos pés da montanha coroada pelo ponto mais próximo do sol em todo o planeta, eu só conseguia olhar para aquele lugar — onde descansavam todos os que haviam morrido tentando chegar no topo.


O Chimborazo foi a última montanha da expedição que levou um grupo de seis pessoas, três homens e três mulheres, a seis vulcões do Equador. A cada avanço, a altitude — e a dificuldade — aumentava.


Mas no Chimbo, como os montanhistas e equatorianos chamam, tinha algo diferente.


Em nenhuma das montanhas eu senti o frio na espinha que eu senti lá. Em nenhuma eu senti a hostilidade do ambiente com tanta clareza. Em nenhuma eu senti tanta saudade da minha casa.


Era como se a montanha me dissesse, a todo momento, "eu te vejo". E eu pudesse sentir todos os olhos dela em mim, mesmo dentro do quarto com doze beliches vazios no refúgio que nos abrigava a cinco mil metros de altura.


Antes de me aproximar, eu fiz todos os meus ancoramentos. Chamei todas as minhas egrégoras, de base e de proteção, e os mestres que me acompanham nos momentos decisivos em que eu preciso mostrar a que eu vim. Já faz alguns anos que pratico essa conexão, mas foi lá que eu senti de verdade que eles estavam comigo.


Me senti completamente amparada e protegida e por isso não tive medo. Quando meu peito apertou me obrigando a respirar devagar por causa da altitude, ou por causa do medo, eu chamei por eles. Quando eu quis entrar em pânico com o silêncio e o vazio, eu chamei por eles.


E eu senti que eles vieram.


Com toda essa galera comigo, me aproximei dos que chamavam por mim.


Li os nomes em todas as cruzes e pedras que consegui. Li as datas em que nasceram, os países de onde vieram e as datas em que morreram. Grande parte dos que estavam lá haviam falecido em avalanches, ou seja — seus corpos jamais haviam sido recuperados. Eles literalmente descansavam na montanha e aquele, na minha frente, era o lugar onde a sua última aventura era reconhecida.


Não toquei em nada. Não chorei. Não disse nada em voz alta — mas fui acometida por uma vontade muito forte de fazer uma reverência.


Entendi que o chamado que eu tinha ouvido não tinha me causado medo porque não era uma ameaça — era um chamado por reconhecimento.


Coloquei a mão esquerda para trás das costas, a mão direita no peito, e lentamente baixei minha cabeça. Fechei os olhos e disse: eu os vejo.


Eu estou aqui e eu reconheço a sua coragem, a sua aventura, a sua jornada e a sua partida. Eu testemunho a sua história.


E no segundo em que essa última frase se formou dentro de mim, foi como se um grande livro me atravessasse do topo da cabeça até a sola dos meus pés. Não lembrava dos nomes dos personagens, não sabia bem a ordem dos capítulos, não poderia relatar o enredo para outra pessoa porque faltaria ordem e informação.


Mas sabia que conhecia a história.


Essa experiência me fez entender que para honrar a história de outra pessoa, eu não preciso saber de tudo. Eu não preciso entender tudo. Eu só preciso sentir, lá dentro do meu coração, o que ela quer me contar.


E da mesma forma, entendi que para contar a minha história, eu não preciso saber ou entender tudo.


Eu só preciso sentir, lá dentro do meu coração, o que eu quero contar.




 
 
 

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