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Oroboro: o fim é o início


Nada termina, tudo se transforma


Uma fração de segundo preenchida totalmente por desespero. Pânico em enxergar feito algo que não pode mais ser desfeito.


Foi isso que eu senti quando olhei para as raízes mofadas da planta que eu mais amo dentro da minha casa. Uma peperômia que cresceu alucinada e ficava no alto de um paneleiro do lado da cama, com os bracinhos pendentes caindo em direção ao chão.

Num misto de estupefato e ódio, olhei de novo pras raízes porque não conseguia acreditar. Os bracinhos seguiam verdes, viçosos e compridos — mas as raízes completamente podres.


Molhar as plantas era tarefa dele e agora que ele não tá mais aqui, me esforcei dobrado para não matar nenhuma. Como o calor que chegou nesse janeiro tá especialmente ruim, reguei todas as plantas da casa com esmero. Bastante. Demais.


Aceitei o fato de que ela não tava bem, mesmo que parecesse, e comecei a cutucar os bracinhos pra avaliar melhor qual era a situação. Era só encostar e eles caíam inteiros no chão.


Senti uma raiva absurda. De mim por ter errado de forma tão besta, tão previsível. De ter aquela planta idiota que agora tava molenga e feia e caindo aos pedaços e ia me obrigar a botar a mão na terra e juntar folha seca e limpar o chão do quarto quando terminasse. O pior era que já podia ter desconfiado que tinha alguma coisa rolando porque tinha folha caindo há dias. Não devia nunca nem ter tido essa planta.


Olhando pro que não podia mais ser ignorado, puxei tudo o que tava mole sem dó, controlando meus movimentos ao máximo pra não matar o que ainda restava com saúde no vaso. E deixei cair tudo no chão mesmo, dane-se, depois eu lido com isso.


Mais tarde no mesmo dia, voltei pro quarto com uma sacolinha de supermercado e me ajoelhei no chão pra começar o trabalho. Olhei os bracinhos todos caídos ali e fiquei com vontade de chorar olhando pra tudo aquilo que um dia fez com que ela fosse tão linda e viçosa e agora tava assassinado pronto pra ir pro lixo. Eu sempre achei que aquela planta ia tão mais longe.


Com a raiva domada e resgatando um pouco do respeito pela planta maravilhosa que ela tinha sido, ao invés de tocar tudo na sacola, peguei um bracinho por vez.


E examinando com cuidado, vi que a podridão da raiz não tinha tomado conta de todos. Na verdade tinha vários (dois bem compridos) que tavam praticamente saudáveis. O preto tinha se espalhado o suficiente pra apodrecer várias raízes ao mesmo tempo, mas ainda não tinha ido tão longe a ponto de matar por completo todos os bracinhos.


Comecei a cortar as partes apodrecidas e separar o que ainda tava vivo. Na medida em que fui avançando, me surpreendi com a quantidade de bracinhos que ainda tava ali respirando.


O corte veio na hora certa.


Fechei a sacolinha com o que não dava pra salvar. Organizei os bracinhos machucados em um vasinho diferente, com um pouquinho de água, pra ver quais se animam a enraizar de novo. Até achei bonitinho meu berçário.


E olhei pra planta em cima do paneleiro.


Menos viçosa, menos verde, menos forte.


Mas ainda ali. E agora sim — vista de verdade.

 
 
 

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