top of page

Os três dias mais difíceis da história da minha vida


Até hoje, claro.


Existe um texto que eu sentei pra escrever uma vez só. Não consegui terminar e nunca mais sentei pra escrevê-lo de novo. Essa história não contada, entalada na minha garganta, escorrega pra fora aos pouquinhos em absolutamente tudo o que eu escrevo, não importa o tema. Às vezes fica nas entrelinhas de forma que o grande público não vê — mas eu sei que ela tá lá.


Essa é a história do dia em que o meu pai morreu.


Como escritora, tenho um grande receio de me tornar repetitiva de tanto que eu falo sobre isso. Talvez o grande público não saiba, não perceba, que eu to falando sobre isso o tempo todo. Mas eu sei.


Já falei muito sobre os impactos da morte do meu pai na vida da minha família, do que eu percebi sobre a forma como ele conduziu a vida dele, do que eu aprendi com todo o meu processo de luto desses últimos três anos. Mas eu nunca consegui falar sobre os acontecimentos de fato. Gestos que foram feitos, palavras que foram ditas, as participações palpáveis de outras pessoas durante esses dias.


E é importante falar sobre elas porque nesse contexto de "passagem", quando tem alguém morrendo (ou correndo risco de vida) e todo mundo na volta sabe, as coisas acontecem uma oitava acima. É como se tudo fosse suspenso no vácuo — relacionamentos, hábitos, rotinas e até objetos. E dependendo de como se move nesse período, ganha ou perde seu significado. Na hora.


Dia 1


Era domingo, aniversário da minha irmã. Ele já não saía mais do quarto e nas poucas vezes que eu entrei lá, ele tava sempre deitado, se contorcendo de dor. Mas nesse dia, ele levantou. Minha mãe colocou um banquinho pra ele no banheiro e ele fez a barba. Colocou uma camiseta limpa e sentou na mesa da sala, onde o bolo colorido e gigantesco esperava para o ritual de feliz aniversário.


Cantamos parabéns, ele abraçou a minha irmã, disse algumas coisas pra ela, como era de praxe nos aniversários. Sorriu. Tirei uma foto, a última. E então ele voltou pro quarto.

Poucas horas depois ele passou mal. Começou a vomitar sangue e a gente sabia que esse era o sinal de que ele teria que voltar pro hospital.


Lá do quarto, minha mãe gritou pra gente. "Leli, um balde e toalhas!", "Dimi, carona pro hospital!". Começou a correria.


Pensei que o mais fácil era descer pra garagem e pegar o carro. Hoje eu sei que se isso tivesse acontecido, eu teria dirigido a 200km por hora pela cidade e até hoje olho pra um carro diferente quando sei que tem emoção envolvida. Liguei pra um casal de amigos que morava próximo, não atenderam. Mandei uma mensagem correndo enquanto chamava a SAMU, pela primeira vez na vida.


Enquanto eu falava com a SAMU pelo telefone, os amigos chegaram. Desliguei na cara da moça. Peguei todas as bolsas, chaves e telefones e saí abrindo as portas, tirando as coisas da frente. Lá do quarto, vieram três — mas só dois eu conhecia.

Meu pai no meio, mole, com um braço por cima dos ombros da minha mãe, que segurava também o balde na frente dele, já cheio de sangue. Do outro lado, sustentando metade do peso do meu pai, uma mulher. Na fração de segundo que eu tive pra observar aquela cena, percebi a força, a delicadeza e a potência de uma pessoa que não era mais a minha irmã criança.


Só recentemente, em maio de 2022, entendi como os papeis que cada uma de nós desempenhou nesse momento estão relacionados com a nossa identidade. Numa festa de rua cheia de gente, eu e a minha irmã nos vimos numa situação onde essa dinâmica se repetiu. Estávamos com uma amiga que passou mal — só deu tempo de ela dizer "gente não to bem, vou desmaiar". Quando ela apagou, foi nos braços da minha irmã. E eu saí correndo pela multidão pra encontrar ajuda.


Eu me dei conta de que pra mim foi instintivo "fazer". Me mexer, gritar, correr, fazer alguma coisa pra resolver. Eu sabia que ninguém ia me parar e que algum jeito eu ia dar, e essa é uma postura que me acompanha em muitos outros espaços na vida. Percebo a responsabilidade de assumir esse papel e gosto de me sentir capaz de fazer isso.


Ao mesmo tempo, percebo que nem por um segundo pensei em "segurar" quem precisava. Em proteger, encostar, guardar aquele corpo que naquele momento não pode responder por si. Honestamente acho que me dá medo assumir essa posição: ficar parado segurando a bronca. E é por isso que hoje consigo reconhecer a força de quem para. De quem se aproxima, encosta, guarda. Alguém cujo movimento é o oposto da corrida — é uma sentinela.


Quando essa amiga acordou do desmaio, a primeira coisa que ela viu foi a minha irmã. Um rosto amigo, amoroso e firme, que não tinha arredado o pé do lado dela. Eu tava sabe-se lá onde correndo pela multidão tentando encontrar uma ambulância. Às vezes, a coragem de se aproximar e se manter ali, mesmo sem saber o que vai acontecer, é o que mais conta.


Voltamos para fevereiro de 2019. Estamos no carro indo pro hospital e dá pra sentir no ar o esforço de todo mundo pra manter a situação sob controle. Os vômitos de sangue dão um momentinho de trégua e meu pai faz um comentário cordial sobre o trânsito, com o tom de voz controlado, até uma risadinha. Lembro de pensar que aquilo era a cara dele — tentar suavizar a situação pra quem tava junto mesmo que ele tivesse que segurar a onda sozinho.


Assim que chegamos no hospital, a equipe da emergência colocou ele na maca e eu vi a expressão dele mudar pra um misto de alívio e alguma outra coisa que ainda não sei bem o que é. Como se internamente ele tivesse soltado alguma coisa muito pesada. Até hoje lembro da cena — toda aquela gente de branco ao redor dele na maca, ele deitando devagarinho com os olhos fixos na minha mãe, e ela dizendo: "amor, vai tranquilo que a gente vai estar aqui".


Entramos no hospital e no meio das burocracias, das outras pessoas em atendimento e de toda a situação que a gente tava assimilando, me vi sozinha com o bendito balde na mão.


Recobrei meus sentidos e comecei a procurar um banheiro para jogar aquilo tudo fora. Lembro que a quantidade de sangue que tinha no balde era maior do que a quantidade de água que eu normalmente coloco pra deixar os panos de limpeza de molho. Na medida em que fui virando aquilo no vaso sanitário, percebi que não era só líquido, tinha pedaços. Lembro de pensar que o meu pai devia estar se desmanchando por dentro.


Passamos horas sentadas nas cadeiras da sala de espera, e aqui aproveito pra lembrar — ainda era aniversário da minha irmã.


Já tínhamos passado do ponto de fingir que dava pra salvar o dia, a conversa, o senso de normalidade. O casal de amigos que nos deu a carona continuou conosco no hospital e foram eles que deram o suporte necessário pra dissipar a tensão de não saber o que ia acontecer. Momentos de silêncio foram intercalados com comentários leves sobre amenidades, fotos de cachorros do sobrinho da prima de terceiro grau, um vídeo de receita de uma coisa que a gente tinha que fazer, etc.


Esses foram os mesmos amigos que em internações anteriores trouxeram quitutes pra minha mãe, passaram no hospital todos os dias mesmo que rapidinho pra conversar com a gente, viraram ponto de referência até de familiares nossos que moravam em outras cidades e queriam estar por dentro do que tava acontecendo sem nos incomodar todos os dias.


O mais importante pra mim em relação ao apoio incondicional que esses amigos nos deram foi que eu entendi que pra eles, aquilo não era um sacrifício. Eles nos ofereceram o que eles tinham pra dar. Tempo, estrutura emocional, caronas, lanchinhos, uma palavra de conforto.


Com eles, a gente não precisava fingir nada. Quando a vida de alguém tá em risco, quem tá em volta da pessoa também sofre. E essa é a chave: pra apoiar quem tá em volta não adianta querer dar o que não se tem.


Quem dá o que não tem oferece com a contrapartida silenciosa da gratidão. Oferece torto, oferece pela metade, oferece visando a si mesmo em primeiro lugar e não ao outro (mesmo que inconscientemente). Ao mesmo tempo, quem oferece o que realmente tem pra dar vem com tudo. Ajuda até quando não tá ativamente pensando em ajudar. São pessoas que justamente por se entregarem de coração, navegam pelo momento com um pouquinho mais de naturalidade.


Já era de noite quando nos chamaram e meu pai estava sedado. Ficaria na CTI em observação pelas próximas horas e não era permitido acompanhantes. Choramos abraçadas olhando pra ele inconsciente e fizemos um carinho na mão sem tubos e fios. Como voltamos para casa, o que fizemos nessa noite, como dormimos… não lembro de nada.


Dia 2


Segunda-feira. Depois de fazer ligações para a família e cancelar a agenda de trabalho, fomos para o hospital. A coisa tava feia. Meus avós vieram de Santa Catarina, minha tia que é irmã do meu pai veio de Salvador. Esse dia pra mim foi uma grande "corrida pela multidão em busca da ambulância". Passei o dia zanzando de um lado pro outro, falando com pessoas no telefone, tentando segurar o meu pandeiro sempre que me encontrava sozinha.


Meus amigos me deram de tudo, cada um o que podia dar: abraços apertados, olhares emocionados, flores, chocolates e até orientações jurídicas. Aceitar o que o meu círculo queria me oferecer foi crucial pra que eu crescesse, energeticamente e emocionalmente, à altura do desafio que me encarava. Se eu fosse menor, talvez não tivesse conseguido. Mas daquele tamanho, consegui.


Eu sabia que um milagre ia acontecer e passei o dia correndo atrás dele. Foram horas cheias de rostos, de decisões, de conversa, de movimento. Não parei.


De noite, quando voltamos para casa, minha mãe nos chamou pra conversar. Nos disse que a gente podia parar de esperar por um milagre porque ele não ia acontecer.


Nesse momento, só tinha uma tarefa que a minha cabeça conseguia processar. Só um jeito de existir. Peguei papel e caneta e comecei a escrever a homenagem que eu faria no velório pra um coração que ainda não tinha parado de bater.


Dia 3


Me vesti com uma camiseta que eu amava e que até hoje não consegui usar de novo. Fizemos aquele mesmo caminho para aquele mesmo hospital que até hoje me faz olhar na direção contrária.


Na "cabine" ao lado da do meu pai na CTI, uma cama tinha sido liberada. E um grupo de enfermeiros, que arrumava os aparelhos e lençóis, comentava sobre algum filme que todos eles queriam ver. Eles riam e conversavam com a leveza de quem não precisava ver o próprio pai em coma e eu me enchi de ódio com essa demonstração de que o mundo continuava girando. Levantei da minha cadeira com o intuito de meter a boca em todo mundo e mesmo que tenha feito esse movimento em silêncio, minha mãe percebeu. E da cadeira dela, disse: "Dimi". Com a mesma entonação que ela dizia "Ricardo", chamando o nome do meu pai quando ele ficava puto numa briga de trânsito qualquer e ameaçava abrir a janela pra brigar.


Aquilo me pegou. E quando eu cheguei na frente deles consegui modular minha expressão e só pedir educadamente que eles conversassem um pouquinho mais baixo, ao que eles imediatamente concordaram e se desculparam.


De volta na minha cadeira, olhei pro meu pai mais uma vez. Magérrimo, amarelado, cheio de tubos. Do nariz dele saía um fio que ficava preso em dois pontos da cama, o primeiro no alto e o segundo no pé. Um triângulo mórbido que segurava as entranhas dele no lugar. Eu só não conseguia entender.


O médico veio e nos disse que todos os medicamentos já estavam nas suas doses máximas. Que dali em diante… o caminho era deixar que o fluxo natural das coisas acontecesse, interrompendo as medicações, e aos pouquinhos ir desligando os aparelhos.

Os filmes nos enganam quando mostram todos os monitores apitando de uma vez só e a pessoa partindo inteira. Meu pai precisou de duas horas pra morrer por completo e nesses 120 minutos a gente escutou cada "bip" diferente que apitou. Me avisar que o milagre não vinha não adiantou — eu seguia esperando por ele. Quando um dos monitores acendeu, fiz menção de ir atrás de um médico indignada que ninguém vinha ver o que tava acontecendo. Lembro de dizer indignada pra minha mãe, minha irmã e minha tia: "gente isso aqui não tá certo, ninguém vai vir olhar esses aparelhos?!?!". Ao que a minha mãe pacientemente respondeu: "amor, de "certo" isso aqui não tem nada".


Antes do último bip parar, uma lágrima rolou pelo olho direito no rosto dele.


"Amor, pode ir que a gente vai ficar bem".


E então ele foi.


Quando o coração dele parou de bater, a mão dele tava dentro da minha. Quando os aparelhos foram todos desligados, eu abracei o meu pai pela última vez e chorei até esquecer quem eu era. Não sei se passaram 2 minutos ou 20. Naquele momento, eu não era uma pessoa — era um sentimento.


Hoje eu sei que abraçar o corpo morto do meu pai foi o momento em que eu realmente vim à vida. É como se até aquele momento eu jamais tivesse ousado tocar de verdade no que tinha dentro de mim. Não só o luto por ele naquele momento, mas a minha identidade. Quem eu era e o que eu sentia em cada minuto da minha existência como ser humano em jornada na matéria.


Rituais de despedida


É caro morrer. Lembro de pensar isso e me assustar com as minhas próprias palavras depois de ligar pras funerárias e crematórios para agendar o velório.


Tomei a frente das funções burocráticas porque senti que tinha aquilo pra dar. Mudei de postura, encarei outra versão de mim e me senti mais forte (e leve) por poder ocupar essa posição pra minha família. Não que não tenha tomado um laço — quase desmaiei na funerária escolhendo o caixão e o conjunto de flores que vai por cima do corpo. Sabia que quanto mais colorido, mais caro? Os basiquinhos são brancos, no máximo brancos e amarelos.


Mas facilitou o processo estar acompanhada de pessoas que tinham dentro delas apoio pra me dar. Escolhi o caixão ao lado do meu namorado da época e de uma grande amiga, com quem quinze dias antes eu tinha passeado no centro pra escolher adereços de carnaval. A mente de uma pessoa em luto pode ter espaço para o humor — lembro de quase fazer uma piada sobre isso com ela. "Como é bom ter amigas que amam fazer compras com a gente, do glitter ao caixão". Ri baixinho mas achei que não era de bom tom e guardei pra mim.


O velório foi uma surpresa. Tinha tenta gente querida reunida no mesmo lugar que tinha mesmo um tom de celebração, de ritual, de momento importante. E é quase como se fosse uma festa mesmo — tem gente fazendo e falando de tudo.


Tenho um amigo que ria o tempo todo, não por mal, mas de nervoso e desconforto. Teve gente que segurou as minhas mãos e me disse um monte de coisa, que hoje eu nem lembro mas que na época fez bem ouvir. Teve uma amiga que nunca vai nas minhas festas de aniversário, mas foi a primeira a chegar no crematório. Teve gente que não falou nada, só olhou e abraçou. Teve gente que não foi — e desses eu me ressenti por muito tempo até entender que cada um dá o que tem. E vivenciar um velório, que é um dia inteiro carregado com muito mais emoção que o normal, não é um compromisso pra se ir de forma leviana.

Quando a hora da homenagem chegou, dava pra ouvir o som da folha de papel tremendo na minha mão. Eu normalmente tenho facilidade pra falar em público e lembro de estranhar aquela cena, aquele barulho. Mas tinha combinado com uma amiga que se eu não conseguisse falar até o final, ela leria a mensagem pra mim — então continuei.


Os minutos em que eu falei foram uma catarse. Eu me tremia inteira, mas as palavras encontraram seu caminho pra fora de mim sem que eu precisasse ler o que tinha escrito. Foi uma das primeiras vezes na vida em que eu me permiti expor minha vulnerabilidade em público através da comunicação e foi tão importante, tão significativo, que eu transformei isso no que hoje é a minha profissão.


Quando todo mundo foi embora, fizemos graça mudando a cor da iluminação da sala do crematório (tem o arco-íris todo, sabia? E pisca também). Essas risadinhas roubadas foram o oxigênio desse dia e uma lição permanente sobre não se deixar cair no buraco.

Ou melhor: se permitir rir mesmo (ou talvez principalmente) quando a gente tá num momento difícil.


Esse não é um texto perfeito, não revisei como faço normalmente, não sei nem pra quem exatamente to escrevendo. Mas sei por que to publicando: pra que ele saia de mim. Pra que a história se liberte e assim abra espaço aqui dentro pra outras grandes narrativas sobre as aventuras de uma mulher que sente tudo — e não tem medo de contar como foi.

 
 
 

Comentários


bottom of page