Preciso de flores na minha casa
- Dimitria Back Prochnow

- 12 de set. de 2025
- 3 min de leitura

O romance que mora no desnecessário necessário
Há uns três meses, decidi que na minha casa sempre vai ter flores. Preferencialmente vermelhas, laranjas, rosas ou amarelas. Daquelas que a gente compra no mercado mesmo, sem muita cerimônia e pra poder manter o compromisso.
Ter flores o tempo todo implica num comprometimento de tempo e dinheiro. E porque não, de sentimento — afinal a gente precisa constantemente lidar com o que já murchou, jogar fora o que uma vez era lindo, entender que o auge da cor e do perfume não vão durar pra sempre e que pra aproveitar de verdade, a gente precisa prestar atenção.
E aí outro dia pensei comigo mesma, "pra que isso?".
"Eu já tenho bastante coisa pra fazer, não preciso de mais uma tarefa".
"Gastar tempo e dinheiro só pra bonito?".
E aí ouvi o barulho das engrenagens do meu organismo se reorganizando, como naquelas cenas de filme de ação em que a personagem consegue abrir um cofre e a gente enxerga todas as travas abrindo pela parte de dentro.
Entendi que sim, preciso disso mesmo que seja "só pra bonito". Entendi que uma casa funcional não basta pra mim. Que um dia a dia que envolve só o que eu "preciso" fazer não é suficiente.
Entendi que me dedicando ao comprometimento com as minhas flores, eu tenho uma casa linda. Que me inspira, que me traz prazer, que me reconecta a cada novo ciclo com o romance que eu quero ter na minha vida.
E agora pensa comigo, quem é que PRECISA de romance pra viver? Quem é que PRECISA de uma casa linda? Romance não interfere na nossa respiração, não enche barriga, não paga as contas.
Mas uma vida sem romance…
É uma vida que pra mim não basta.
Já parou pra pensar no tanto que a gente deixa de dizer porque não é "necessário" dizer? Nas coisas que a gente deixa de fazer porque não enxerga a utilidade delas?
Aí vai guardando tudo isso, botando pra fora só o que é "necessário", e pouco a pouco vai se distanciando do romance. Deita a cabeça no travesseiro de noite com o sentimento de que falta algo, mas não se sabe o que. De que não dá pra reclamar, a vida tá legal, mas que podia ter mais tesão. Volta pra casa depois de ver os amigos com a sensação de que eles talvez não conheçam quem a gente é de verdade — porque a gente não mexeu um palito pra mostrar. "Não era necessário".
Nem sempre o que nos encanta, o que provoca nossa curiosidade, o que nos faz ter apetite pela vida é "necessário".
Com as minhas flores, entendi que quando a minha rotina tem só o que é funcional, ela me desanima. Que quando eu faço só o que eu preciso, eu deixo de viver todo o romance que tá aí esperando pra ser descoberto e vivenciado.
Isso não quer dizer que a gente não possa encontrar romance nas tarefas necessárias. É aí que tá o pulo do gato — sinto que quando abrimos espaço para o "desnecessário", nos permitimos sentir mais em todas as áreas da nossa vida — encontrando graça, vontade, sangue e pulso inclusive nas necessárias.
Cuido das minhas flores e assim tenho vontade de fazer faxina na casa, para que elas morem num lugar à altura. Me visto com as roupas mais coloridas e divertidas que eu conseguir encontrar — e assim tenho empolgação pelo dia que está por vir, mesmo quando as tarefas dele não são as que eu mais gosto. Saboreio meu café, uso meu batom vermelho, como minha sobremesa — porque eu quero uma vida de romance, de prazer, de apetite.
E assim só eu sei o que é realmente necessário para vivê-la.
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