Quando fazer as pazes é a única coisa melhor do que brigar
- Dimitria Back Prochnow

- 12 de set. de 2025
- 4 min de leitura

Receitinha fácil para a auto-sabotagem (dentro e fora da nossa cabeça)
Na primeira vez em que eu me apaixonei de verdade na vida eu descobri o prazer de caminhar na rua de mãos dadas. Eu amava aquilo, aquela sensação das mãos enganchadas com um dedinho meu, um dele, um meu, um dele. Daquele jeito eu caminhava até a China. E aí numa caminhada qualquer num final de semana qualquer, eu percebi que quando eu dava um passinho mais pra longe, aumentando a distância entre os nossos corpos sem soltar as mãos, ele sutilmente me puxava pra perto dele de novo.
Não sei explicar o porquê, mas aquilo foi crack pra mim. Disfarçadamente, de duas em duas quadras mais ou menos, comecei a dar passinhos pra longe de propósito, só pra sentir ele me puxar de volta. Era tão fácil provocar a manifestação daquela gravidade particular e tão irresistível me sentir sob o efeito dela.
Foi só agora, anos depois, que me dei conta de que talvez não fosse só isso.
Achei que 2022 já tinha cumprido sua cota de auto-descobertas brutais mas na rabeira de dezembro chegou mais uma: irresistível mesmo, pra mim, é testar o vínculo. É abrir distâncias de propósito pra ver se vai ou se fica. Venho fazendo isso há anos e só agora tomei consciência desse movimento.
Não tem nada que me traga mais prazer na vida do que a sensação de resolver uma encrenca — e eu sou boa nisso. Tão boa que comecei a trabalhar com gestão de crise pra fazer isso pros outros. Tão boa que criei o meu próprio método pra lidar com uma encrenca sem tirar o coração da equação. Tão boa que perdi o medo.
Profissionalmente, o conflito é o meu espaço de brilho. Eu entro com perspicácia e conduzo as coisas com amor, de peito aberto, mesmo (e principalmente) em ambientes corporativos. É por isso que dá certo. A Dimitria resolvedora de conflitos é uma das versões de mim que eu mais gosto e respeito.
Tá vendo pra onde vai essa ratoeira?
Pra abrir espaço pra versão de mim que eu mais gosto e respeito, eu preciso de um conflito. Os que vem naturalmente passaram a não ser suficientes — então comecei a cavocar oportunidades pra encontrar mais.
E aqui sinto que se faz necessário um adendo importante: não entenda, caro leitor e leitora, que eu gosto de baixaria. Que eu gosto de dedo na cara, palavrão, briga feia. Se todo conflito fosse assim, seria muito mais fácil de evitar — porque é ruim de vivenciar uma experiência dessas. A gente sai com dor de barriga e precisa de dias pra processar a violência de uma interação desse naipe.
O conflito, aqui, é gostosinho. É passar por um aperto só pra ter a sensação de relaxamento que vem depois.
Minha sensação hoje é como se alguém botasse uma caixa de Pandora no meu colo e me pedisse pra segurar sem mexer. Se a chave tiver na minha mão… não vai dar. Eu vou abrir. Não consigo deixar passar a chance de ter uma conversa difícil, de dizer o que eu penso, de provocar esse micro-caos. Porque atravessá-lo junto quer dizer que a gente vai sair mais próximo, mais forte, mais verdadeiro um com o outro — ou vai se afastar e foi até bom porque aquela discordância provavelmente tava ali dormente esse tempo todo, e agora foi revelada.
A minha intenção jamais é machucar o outro, pelo contrário — só faço isso quando sinto que existe ali uma oportunidade valiosa pra todo mundo envolvido de transcender em conjunto.
Isso quer dizer que frequentemente, a coisa não se torna um conflito. Se torna uma oportunidade de aproximação e de conhecer o outro por quem ele realmente é — porque ele vai estar se posicionando sobre algo que importa. Acho saudável, honesto e muitíssimo construtivo. Mas nem sempre é bem assim que acontece.
Às vezes, eu queimo a largada — não precisava puxar aquele fio tão cedo ou naquela hora. Às vezes, eu erro o tom de voz — porque a necessidade de vivenciar aquilo é muito mais minha do que do outro. Às vezes, eu permito que a minha mente me roube o momento presente enquanto eu desenrolo diálogos fictícios pra treinar argumentos. Aterrisso de volta no meu banho sem saber se já passei mesmo o condicionador porque tava distraída pensando no que eu falaria caso alguém me perguntasse sobre a rebimboca da parafuseta e eu tivesse que responder. Ou pior, se um cliente precisasse responder. Quando entra aí, me esquece que eu fui pra Nárnia.
Acredito que tudo isso seja parte do processo de acessar meu poder pessoal e aprender a calibrar o que vem de lá. Sei que é nesse continente que tá enraizada a missão da minha vida e é por isso que a minha voz dentro de um conflito tem tanta potência. To aprendendo a lidar com essa força que muitas vezes me pega de surpresa e domina outras das minhas forças que ainda são menos confiantes.
Mas começo a me dar conta de que conflitos não precisam ser as únicas oportunidades de transcendência que a gente pode encontrar. Existe outra porta de transcendência muito maior, muito mais potente e incrivelmente mais assustadora: o amor.
Nesse ano, me fiz granada só pra ver quem conseguia me desarmar — e ai de quem se apresentasse. Muito falei nos meus textos sobre os fracassos dos que tentaram — claramente frustrada, mas no fundo um pouco orgulhosa. "Ganhei" todas. E como poderia ser diferente?
Maior do que o conflito, só o amor. E vencer um conflito construído pra impedir o acesso ao amor não é tarefa de nenhuma outra pessoa além de nós mesmos, arquitetos dessa emboscada.
Cansativo, né? Decidi que chega. Os primeiros tijolinhos já comecei a desmontar e às vezes tenho até a sensação de que basta uma machadada no lugar certo e a parede cai inteira. Pra mostrar pra ela quem é que manda, pichei bem grande de vermelho:
É preciso mais coragem pro amor do que pra guerra.
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