Sambando na ponta de uma faca
- Dimitria Back Prochnow

- 12 de set. de 2025
- 4 min de leitura

Como é o chão sob os seus pés na estrada pra conquistar os seus sonhos?
É uma coisa linda o que acontece quando a gente identifica o que realmente quer da vida. Óbvio que isso pode mudar com o tempo e que às vezes a gente se engana com o que acha que quer, mas quando a bússola aponta pro norte… A determinação pra chegar nesse lugar é uma força da natureza.
Eu encontrei a minha. Venho falando dela aqui há algum tempo já: ser uma pessoa que diz o que pensa. Ter uma família com um parceiro de vida. Viver um relacionamento de fidelidade e muito amor. Escrever meu(s) livro(s), viajar pro Paquistão, desenvolver minha linha de jóias. Quanto mais eu cavoco, mais sonhos que eu sinto serem muito meus aparecem.
Pra cada um deles, eu tenho condutas de vida. Atitudes do meu dia a dia que eu banco porque sei que são elas que sustentam a construção do caminho até o meu sonho. Por exemplo:
Pra ser uma pessoa que diz o que pensa, eu exercito a minha voz em espaços virtuais e reais; sempre comprometida com a honestidade, sem me mixar por medo das minhas próprias opiniões.
Pra ter uma família com um parceiro de vida, comecei a filtrar melhor quem são os homens com quem eu me relaciono; comecei a buscar conhecimento sobre o que eu sinto que me corresponde enquanto mulher nesse papel de esposa e mãe (sem esquecer que eu vou continuar sempre sendo a minha própria pessoa também).
Pra viver um relacionamento de fidelidade de amor… aqui a coisa tá meio torta ainda, mas to abrindo o mato a facão pra descobrir.
Desde o momento em que eu comecei a me comportar de acordo com as minhas condutas, eu me sinto diferente. Sei que tenho um grau de comprometimento com os meus sonhos que eu não tinha antes — e que pouca gente na minha volta tem.
Encontro os meus amigos e me sinto diferente. Chego num grupo de pessoas novas e me sinto diferente. Me olho no espelho e me sinto diferente.
E ser diferente… é incrível e é uma bosta.
Hoje, pela mesma razão: porque ninguém na minha volta tá vivendo o que eu quero viver.
Ou seja: que bom que eu não me identifico, sinal de que to construindo pra mim algo diferente. E que ruim que não me identifico, sinal de que não tem ninguém indo pro mesmo lugar — ou pelo menos não da mesma forma.
Nunca me senti tão forte e ao mesmo tempo nunca me senti tão sozinha.
Nos dias em que eu sinto a força, sei que pode sumir todo mundo da face da Terra e eu não vou parar até chegar onde eu quero. Nos dias em que sinto a solidão… me pergunto de onde sai toda aquela força — e se não é de uma grandiosa viagem na maionese ao invés de um grandioso projeto de vida.
É quando eu questiono a validade dos meus sonhos que eu fragilizo o comprometimento com as minhas condutas.
Mas será que é inteligente não questionar? Dou de cara nessa parede uma vez depois da outra.
É sempre a mesma questão que sobe, sempre a mesma sombra a ser trabalhada, sempre o mesmo amor e o mesmo ódio por ela, que nunca me deixa em paz. Talvez seja assim pra todo mundo — cada um com a sua grande batalha a ser vencida ao longo da vida através dos vários desafios que enfrentamos na nossa linha de tempo.
A minha é com a dúvida.
Eu questiono absolutamente tudo na minha vida.
Foi essa conduta que iluminou o caminho pra fora de grandes burradas que eu tava pronta pra fazer, e é ela que me mantém sambando na ponta de uma faca sem nunca conseguir botar o pé inteiro no chão.
To entendendo que questionar também é uma forma de não se comprometer.
Eu tava tão desconectada dos meus sonhos que quando eles apareceram, não consegui pensar em mais nada a não ser em como eu ia fazer pra chegar neles. Fiquei — ainda estou, na verdade — completamente obcecada por fazer acontecer o que eu quero viver.
E foi aqui que a arapuca se armou: se eu não acho que vai me levar pra perto do meu sonho, não quero. Não me abro, não me interesso, não me disponibilizo.
Então, na verdade, me fecho. É como se não aceitasse conquistar o meu sonho através de uma estrada diferente da que eu defini — e nunca nem vou descobrir quais são esses outros caminhos porque não me permito desviar do original.
Tem dias que o meu coração pesa e eu sinto que enchi o saco dos meus sonhos. Tá ficando chato demais viver por eles.
Mas agora, escrevendo esse texto, nesse minuto mesmo, to me dando conta de que não são os meus sonhos o problema. O que eu enchi o saco foi da minha forma de buscar por eles. O general interno que botou disciplina nessa zona e foi tão respeitado por isso agora excede sua autoridade. Criou uma série de decretos que autorizam a revelação de desejos profundos, mas proíbem a construção de percursos novos para vivenciá-los.
Sentiu daí a força da rédea curta?
Meu coração tá em tratativas com o meu general e eu to observando esse trâmite torcendo por um acordo pacífico. Não queria ter que me dar um golpe pra conseguir tirar o poder da mão dele.
Mas se ele não ceder… eu já sei quem dá a última palavra, custe o que custar.
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