Sentir-se diferente não é a mesma coisa que bancar ser diferente
- Dimitria Back Prochnow

- 12 de set. de 2025
- 3 min de leitura

Assim como amar alguém não é a mesma coisa que bancar amar alguém.
Primeiro a gente tenta fingir que não percebeu.
Pra poder continuar andando com as mesmas pessoas, pra poder seguir com a rotina que a gente já conhece, pra não precisar bagunçar o que a gente sabe que vai ser um caos de consertar.
Afinal de contas, quinta-feira tem churrasco com o pessoal, no final de semana quero descansar, na segunda-feira tenho uma reunião importante. Se começar a mexer nisso, vai avacalhar tudo o que tá planejado. A gente sabe, é por isso que empurra aquela sensação lá pro fundo — e toca o barco.
Até perceber que o barco não tá indo pra onde a gente quer.
Bem quietinhos, com o canto dos olhos, a gente começa a observar que esse barco coletivo não tá necessariamente afundando, mas também não tá indo pra onde a gente se deu conta que gostaria de estar.
Ou seja: querendo… dá pra ficar.
Poderia ser uma viagem linda, tranquila, acompanhada de todo mundo que a gente já conhece e que tá feliz em estar naquele barco, com regras claras sobre o que é certo ou errado, o que é meu e o que não é, o que eu posso querer e o que tá fora do meu alcance. Com certeza seria uma viagem mais fácil.
O problema é que no momento em que a gente se dá conta de que não tá indo pra onde queria ir, perde o direito de lá na frente dizer "não era aqui que eu queria estar".
É esse o ponto em que a coisa toma forma: sacar que aquele não era o caminho e escolher permanecer nele é dizer pra si mesmo que dali pra frente, é ladeira abaixo. Não importa quantos anos a gente tenha, quantas coisas ainda possa viver, permanecer no caminho que não nos corresponde é como um comando de resignação pra cada célula do nosso corpo. Um comando que diz:
"É impossível ser quem se é — seja de outra forma."
"É impossível viver o que se quer — viva o que está disponível."
E não me entenda mal, ter que pular pra fora do barco é muito difícil. A água é gelada e fica todo mundo lá do convés de olho arregalado. Mas quando a gente tem que ir, a gente sabe. E aí a única coisa pior é ficar.
Quem fica (sabendo que deveria ter saltado) enrola o coração num cobertor.
Um cobertor bem grosso que cumpre a função de amortecer o golpe que é encarar a própria covardia, mas que acaba amortecendo todo o resto também — tudo o que poderia emocionar, inspirar ou transformar.
No calorzinho do cobertor, fica mais difícil de sentir qualquer coisa.
Fica mais difícil lembrar de quem se é, do que se sonha, do que se busca. Do que traz prazer. Do que a gente realmente gosta e realmente não gosta.
O calorzinho continua até o barco sacolejar. E pra conseguir se segurar, a gente precisa se mexer — e por causa do movimento, passa correndo um sopro de ar gelado por baixo do cobertor.
A gente sente aquilo e não sabe dizer se gosta ou se desgosta — só sabe que sentiu. E que talvez precise sentir de novo pra entender.
Desde que dei o meu grande salto alguns anos atrás, frequentemente me vejo de novo embarcada — e precisando considerar se é lá que eu quero ficar ou se é preciso que eu salte mais uma vez.
A verdade é que os saltos nunca param.
Essa é a parte difícil, que na verdade vai ficando cada vez mais fácil, uma vez que a gente se dê conta que tem força nas pernas pra saltar, fôlego no peito pra nadar e uma bússola no coração pra reencontrar o nosso caminho. Se você duvida que tenha essas coisas, eu te garanto: você tem. Só talvez não esteja conseguindo sentir que elas estão aí.
Às vezes, a gente pula com outras pessoas. E só de olhar pros lados e se ver acompanhado, a gente ganha coragem. Outras vezes, precisa pular sozinho — e nessas, não sei dizer o que é mais desafiador: pular com todo mundo olhando ou pular sem ninguém notar.
Sentir que a gente precisa pular é diferente de bancar que a gente sentiu que precisa pular. Amar alguém é diferente de bancar que a gente ama alguém. Querer conquistar algo é diferente de bancar que a gente quer conquistar algo.
E a diferença mora na coragem de fazer o movimento — não apenas em reconhecer que ele precisa ser feito.
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