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"Tudo é aprendizado" — até o momento em que passa do limite


Tu saberia dizer onde fica o teu?


Encarar o que a gente vive (de positivo e negativo) como aprendizado é bom, se disponibilizar a aprender é ótimo. Identificar os professores e suas respectivas lições, então, é melhor ainda.


Mas a gente se esquece que as lições tem início, meio e fim — e reconhecer esse fim pode ser a parte mais traiçoeira do processo.


Será que ainda tem alguma coisa pra eu aprender aqui?


Será que isso persiste porque algo na lição ainda me corresponde?


Será que a lição de verdade vai vir se eu persistir um pouquinho mais?


Quando a lição foi dada e a gente continua lá… me arriscaria a dizer que o aprendizado se transmuta e passa a ser outra coisa.


Uma coisa que a gente permite que permaneça. Uma coisa que a gente escolhe seguir vivendo, mesmo sentindo que tá torto. A gente já não tem tanta certeza se tem alguma coisa ali pra ser aprendida, mas na dúvida, deixa se prolongar um pouquinho mais.


E não quer dizer que não tenha mais aprendizado disponível — às vezes é na sombra da sombra da sombra que a verdade se revela. Mas talvez a gente não precisasse entrar na sombra da sombra da sombra. Na metade do poço já dá pra ver que o fundo se aproxima. Precisa deixar a coisa seguir até bater de bunda lá embaixo? Pra algumas pessoas, sim. Mas a lição chegou antes.


Então o que é que tem no fundo do poço que faz com que ele seja tão irresistível? Por que é que a gente vê ele chegando e segue marchando pra baixo ao invés de se agarrar na corda e voltar pra superfície?

Eu tenho uma teoria.


Sentir sentimentos extremos fazem com que a gente se sinta vivo — e é muito difícil se permitir sentir a felicidade extrema. Mas a tristeza extrema… pra essa a gente estende o tapete vermelho.


Por que, não sei. Se é porque a gente acha que não merece ser feliz, por que a gente acha que o mundo é um lugar triste e não feliz, se é porque a gente nunca nem se permitiu sentir sentimentos extremos pra começar a refletir sobre isso.


Não sei o que rola. Mas sinto que pra muita gente, deixar a tristeza entrar é o caminho mais familiar pra sentir algo intenso. E quando a gente sente algo intenso, se sente vivo; e quando se sente vivo, conhece mais de perto a nossa essência, quem a gente realmente é.


Esse, pra mim, é o pulo do gato: todo mundo quer sentir quem é de verdade, e o caminho pra essa conexão tá muito mais fácil de acessar pela tristeza do que pela felicidade.


Pra você que chegou até aqui nesse texto, eu vou contar um segredo.

Eu estou triste.


Faz semanas que eu estou triste. Eu já aprendi a minha lição e não consigo me desvencilhar da sensação de que ainda tem alguma coisa pra aprender. Ainda não bati a bunda lá embaixo, mas estou cada dia mais perto. Por que? De onde vem isso?


Estou entendendo que vem da minha satisfação em estar conectada com quem eu realmente sou — o que eu consigo fazer com mais facilidade quando estou triste. Como? Eu te explico.


Eu, triste, escrevo coisas lindas.


Eu, triste, não me incomodo com silêncio.


Eu, triste, sinto tudo.


Eu, triste, me abro pra possibilidade de que qualquer pessoa ou situação pode me trazer felicidade.


Eu, triste, me transformo.


Só que eu, triste, tenho medo. Me fecho. Fico menos, fico dura, fico seca.


Aprendi a valorizar e não me intimidar com as minhas expedições pela tristeza, mas não quero transformar dela minha morada. Sinto uma gratidão imensa por poder ter tido a oportunidade de me sentir triste a ponto de conhecer quem eu sou lá dentro, de verdade, e seguir vivendo.


Mas quero continuar descobrindo quem eu sou por outras pontes. Pela da felicidade, com certeza; e também pela do prazer, da superação, do amor.


Se tu já viveu a tristeza ou a felicidade extremas, me conta como foi. Um mapa viria muito bem.


E agora me dá licença que eu preciso ir — tem uma escalada me esperando de volta pra cima.

 
 
 

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