top of page

Tá monótono mesmo ou é você que não sabe construir a longo prazo?


Quando o interesse se esgota é porque tem algo novo querendo se apresentar.


Imagine que você está numa viagem de férias com o amor da sua vida em uma ilha caribenha. O programa do dia é um passeio de mergulho, com roupinha de neoprene, pés de pato, equipamento de oxigênio e tudo.


Você, por conta própria, talvez não encarasse a proposta. Mas com o seu amor… você vai. Ansiosos e empolgados vocês se olham, sentados na beirada do bote com os pés pra dentro e as costas pro mar. Se olham, prontos pro mergulho, e se entregam pro salto.


Entram na água e é tudo muito novo. A sensação no corpo, o cenário na volta, até o jeito de respirar que agora é adaptado pra que aquela experiência possa acontecer. Os peixinhos, os corais, os raios de sol dentro da água — vocês se olham encantados e felizes por estarem fazendo isso juntos.


Passado algum tempo, seu amor faz um sinal meio desajeitado convidando você pra ir um pouquinho mais fundo. Por você, na verdade, já estaria bom daquele jeito. Tava tudo tão lindo, já estaria ótimo voltar pro barco. Mas alguma coisa no jeito como o seu amor fez o convite deu vontade de continuar. Com esse amor ao seu lado… você vai.


Alguns metros mais para baixo, já não é mais tão claro. Não são tantos peixinhos que nadam em volta e parece até que ficou mais frio. É um pouco desconfortável, mas você começa a sentir curiosidade. Jamais tinha imaginado viver aquilo, um misto de medo com interesse, e justamente por estar dando espaço para essa versão nova de você, uma onda de coragem inunda você por dentro e se mistura com o mar.


Em pensar que se não fosse o seu amor, você não estaria aqui… quanta gratidão. Você olha para o seu amor com a intenção de transmitir por telepatia, osmose ou seja qual for a linguagem não falada todo o amor e coragem que está sentindo e recebe um sorriso tímido de volta.


Você já viu aquele sorriso antes e sabe que ele aparece quando seu amor não está se sentindo bem. Você se surpreende, já que o convite para ir mais fundo tinha vindo de lá. Faz o movimento de levantar o queixo, como quem diz, "que que tá pegando aí?". E então seu amor novamente faz um sinal — dessa vez sugerindo voltar para a superfície, e de forma bem menos desajeitada.


Vocês combinaram de fazer isso juntos, então a possibilidade de um seguir mergulhando e outro retornar à superfície nem passa pela sua cabeça.


Você não quer forçar o seu amor a mergulhar mais fundo. Lá em cima quando era bem mais fácil era você quem estava com medo — impor isso ao outro seria injusto. E o seu amor, você sabe, não quer fazer você voltar antes da hora. Foi tão bonito ver você ganhando coragem e se reconhecer como parte daquela mini transformação. Interromper isso… também seria injusto.


Então vocês resolvem ficar mais por ali, naquela profundidade mesmo. Justo para os dois, não é? Ninguém precisa voltar antes da hora nem seguir mergulhando sem realmente querer ir.


Passado algum tempo, você já não está mais curtindo tanto. Não tem mais muito para olhar por ali e o frio começa a incomodar, mais do que instigar — antes, tinha vindo acompanhado de uma descoberta. Agora, somente de desconforto. Para o seu amor, o passeio deixou de ser exploração e passou a ser espera. Já não existe mais curiosidade pela experiência, protagonismo na própria vivência. Existe uma esperança pelo momento em que o consenso sobre retornar à superfície chegará.


Essa metáfora sobre você e seu amor em um passeio de mergulho é, para mim, uma representação de estagnação em construções a longo prazo.


Momentos onde um quer subir e outro quer descer geralmente se traduzem na vida real com conflitos "impassíveis", aquelas questões que a gente não sabe bem como resolver mas sabe muito bem que tem o poder de detonar o nosso vínculo. Então a gente nem mexe, que é pra não correr risco à toa.


Na hora, parece que é a melhor saída — porque é a mais silenciosa, a mais fácil. Mas a longo prazo, é exatamente isso que engaveta o nosso crescimento. É assim que o sexo perde a graça. Que as conversas se repetem, que os jeitos do outro começam a irritar. É assim que a gente sente que esgotou tudo o que havia para descobrir com aquela pessoa.

Essa sensação vem quando a gente se recusa a seguir mergulhando ou não banca que quer voltar pra superfície. Fica no meio.


E o negócio é que sempre há mais para descobrir, seja retornando à superfície ou mergulhando nas profundezas. Dentro da gente, individualmente, e a dois também.

Só que o outro tem que deixar. Assim como a gente também precisa se permitir ser descoberto. E sinto que em construções a longo prazo, onde a gente naturalmente vai mergulhando cada vez mais fundo, chega um ponto em que dá medo.

Dá muito medo.


Dá tanto medo que a gente não autoriza nada — nem descobrir mais do outro nem que ele descubra mais da gente. Tudo se congela. E aí é óbvio que o interesse vai pro espaço, não importa a idade, o contexto ou a quantidade de amor envolvida.


Mas se a gente conseguir encontrar caminhos pra seguir descobrindo, a estrada é infinita.

E se descobrir a nós mesmos é um caminho infinito, de onde vem a ideia de que poderíamos em algum momento esgotar o que pode ser descoberto no outro, que é um universo completamente diferente?!


A permissão para descobrir e ser descoberto — e encarar o que aparecer — é o que (re)acende a chama do amor que está aberto para ser vivido. É o que mantem as borboletas no estômago sempre lá.

 
 
 

Comentários


bottom of page