Uma sensação estranha de que tudo vai dar certo
- Dimitria Back Prochnow

- 12 de set. de 2025
- 5 min de leitura

Já sentiu ou tá precisando sentir?
Às vezes me pergunto o que pensa de mim quem lê meus textos sem conviver comigo no dia a dia. A gana de escrever geralmente aparece quando eu to no olho de um furacão, ou ofegante com a mão no joelho depois de cruzar a linha de chegada de uma maratona que eu achei que não ia conseguir completar.
Gosto de esmigalhar os acontecimentos da minha vida, principalmente os controversos e mais intensos, pra ver qual é a palavra que sai. "Épico", "trágico", "dor", "glória". As palavras dos últimos meses foram dignas de um teatro grego — e embora eu faça bom uso da minha licença poética para escrever com impacto, é assim mesmo que tem sido. Não é exagero.
Sei com cada célula do meu ser que as decisões que estão cruzando meu caminho hoje são as grandes. Aquelas, sabe? Que fazem com que a gente se sinta feliz ou triste com quem é e a vida que escolhe para si.
Ter consciência da importância desse momento às vezes balança o meu jogo. E se eu for pelo caminho errado? Topar o trabalho que não era pra mim? Me mudar pra cidade que não tem o que eu preciso viver? Escolher a pessoa errada pra construir minha família?
E se no fim das contas o resultado das minhas decisões for menos do que poderia ter sido?
Me debati com isso por anos sem nunca encontrar uma filosofia que realmente parecesse coerente, na teoria e na prática, com a vida orgásmica que eu quero pra mim.
Pois bem: as últimas cenas do teatro grego trouxeram uma resposta.
Esse é um teatro com aventuras de ação, dramas de família e monólogos experimentais. Mas a especialidade da casa, que lota as arquibancadas todas as noites, são as histórias de amor.
Nessa aqui, temos três personagens: um coração, um par de asas e uma muralha.
Tudo o que o coração queria era um par de asas pra voar.
Tudo o que o par de asas queria era um coração pra pulsar.
Quando sentiram o prazer de ser um só, coração e par de asas passaram a se visitar — mas nunca podiam ficar.
O coração, em terras de liberdade e ventania, lembrava do que era capaz. Mas a cada minuto de aventura, sentia o sangue mudar — e, ressabiado com a estranheza, voltava.
O par de asas, em terras de pulso e calor, ia cada vez mais alto. Mas lá em cima, onde o ar já era rarefeito, o coração não acompanhava — e, ressentido com a solidão, o par de asas voltava.
Cada encontro era um misto de êxtase e agonia. Cada encontro uma maldição em cima da muralha que tudo impedia.
Até então, ela permanecia em silêncio. A muralha era esperta e sabia do perigo que corria.
Da primeira pedra que tocava a terra até a última que tocava o céu, ela sentia a força do vento que o par de asas provocava, ansiando pela companhia do coração. Em cada centímetro do seu comprimento, a muralha sentia estremecer as articulações com o pulso que o coração emanava, clamando pelo par de asas.
O que tem que ser tem muita força — e ela sabia.
Foi por isso mesmo que escolheu o silêncio como arma nessa batalha. A muralha é antiga e sabe que se tem alguma coisa capaz de segurar a força do que tem que ser, é o silêncio.
Por longas semanas ela prevaleceu. Sentiu de um lado o vento raspar, do outro o pulso bater — durante todos os minutos de todos os dias. E num ato final de crueldade, quando percebeu que a batalha estava perdida, implodiu os próprios alicerces. Ao longo de todo comprimento onde antes ela reinava com silêncio e pedras, uma fenda se abriu.
Coração e par de asas testemunharam a queda da muralha incrédulos, exaustos, apavorados. Aquilo que era impossível finalmente tinha acontecido.
Mesmo cansado, o par de asas sobrevoou a fenda ao encontro do coração. Como é que poderia ser diferente?
Mas o coração tinha sofrido. Dividir seu pulso entre si mesmo e a muralha tinha feito seu sangue mudar — de um jeito que ele ainda não entendia. E estranhando a si mesmo, sentindo a ausência da muralha que durante toda sua vida esteve ali, percebendo que tudo agora era diferente… escorraçou o par de asas e amaldiçoou toda a mudança que já não tinha mais volta. Queria ficar sozinho.
Então o par de asas entendeu que embora a muralha não existisse mais, a fenda era importante. Entendeu que talvez ela não tivesse sido um gesto final de crueldade e desgosto, e sim um presente da muralha, tão antiga e sábia, de inauguração a novos tempos.
Sozinho, o par de asas retornou. Sobrevoou a fenda de diferentes ângulos e concluiu que sim — se o coração quisesse saltar e encontrá-lo, poderia. Mas enquanto não saltasse, não lhe cabia atravessar a fenda novamente. Entendeu que a harmonia viria quando o coração estivesse pronto — e até lá, não lhe correspondia interferir.
Desde então, o coração bate em silêncio. Não se sabe por onde anda nem que sangue tem.
Do outro lado da fenda, o par de asas transcendeu. Com a liberdade de voar para onde quiser, escolhe ficar. E a cada noite sobrevoa os limites da antiga muralha, fazendo com que o vento carregue a mensagem que não pode entregar.
"Vem, coração. Salta que eu te seguro."
Encontrei a filosofia de vida que eu buscava quando entendi que a melhor decisão possível é aquela que me leva à história que me corresponde.
Passei a conduzir a minha vida buscando não necessariamente o cenário mais perfeito que eu pude imaginar, mas a vivência de uma história que me corresponde.
E desde então eu acordo serena. Eu presto atenção no meu dia e percebo as coisas pequenas. Aquelas, sabe? Que fazem com que a gente se reconheça como testemunha de algo maior. Eu deito minha cabeça no travesseiro de noite e sei que vai dar tudo certo.
Porque eu estou vivendo uma história que é minha. A cada passo, eu confio que estou exatamente onde deveria estar, vivendo exatamente o que é meu pra viver. Sei quem eu sou, sei onde quero chegar — e mesmo assim não deixo de abrir espaço pra mudar a rota e viver algo diferente do que eu tinha imaginado. Abro espaço pro universo me surpreender com um caminho novo entendendo que pra ele "dar certo" tem um monte de curvas onde a qualquer momento eu posso escolher mudar de história.
Essa é a bússola. Não é o "certo" ou "errado", e sim o que a gente sente que nos corresponde.
Já parou pra pensar em quanto de ti tem na história que tu tá vivendo hoje? Tu sente que ela é tua? O que tu poderia fazer pra tomar as rédeas da tua narrativa?
Pra encontrar essa sensação de que tudo vai ficar bem, busquei viver o que é meu. Pode ser imperfeito, pode ser solitário, pode ser diferente do que eu imaginei.
Mas é meu pra viver.
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